E por falar em coisas que não voltam... (O leite
derramado: deixe o gato lamber; o tempo perdido: valorize a experiência)... O
filme Irreversível, de Gastar Noé,
2002, é uma ida sem volta, assim percebe-se a vida, os passos dados, as
atitudes tomadas.
“O tempo destrói tudo”. Parece mesmo uma ideia sem
exceção, afinal, o que o tempo não destruiria? O amor, a paz, a memória, a
amizade...? O abstrato depende, sempre, de um sujeito para que o realize, para
que o faça existir. E o sujeito, de carne e osso, esse fácil e rápido o tempo
destrói.
Geralmente, não gostamos que alguém conte o final do
filme, mas, no caso de Irreversível,
a história já começa pelo fim; e, no entanto, a aflição não o deixa se
desinteressar pelo resto da história. De forma indigesta, os créditos; a imagem
vai girando no sentido horário, deixando tonto, oferecendo um leve enjôo. Um
breve diálogo; os personagens saindo fudidos do “Rectum”. A narrativa
encadeia-se num movimento retrógrado, em que, a cada cena, volta-se a um
momento anterior. Então, a pesar de já se saber qual o final da história, a
ânsia é para entender o que os levou até lá.
Os personagens vão se infiltrando, num caminho
incerto e desconhecido, pelas vielas do “Rectum” – espécie de puteiro gay de
última categoria, que só poderia cheirar mesmo a merda, como indica o próprio
nome do lugar: o intestino, por onde o excremento sai – e de lá saíram,
anteriormente, excretados, feito fezes.
Estavam os dois amigos à procura do “Tênia”. E o que
significa “tênia”? É uma espécie de parasita intestinal, que provoca a teníase,
uma infecção. Tênia, em Irreversível, é esse parasita, uma espécie de cafetão
dos travestis e dos putos, que vive nesse tubo infecto, o “Rectum”, onde toda
merda se rumina.
As cenas de violência dentro do “Rectum”, quando os
amigos pensam ter encontrado o Tênia (sim, pegaram e mataram o cara errado – o
que só se percebe depois, com a sequência da irreversibilidade das cenas), são
de dar nós nas tripas: um braço quebrado sem dó; uma cabeça esmagada com um
extintor; tudo em close, sem prece, nos detalhes, como a digestão.
Agora, por que estavam os dois lá, atrás do verme?
Por vingança. Esse outro corrosivo que percorre as veias do humano. Isso se
entende, com o decorrer, ou com o retroceder da história. Quando a bela
namorada de um (que é também a ex do outro) sai sozinha de uma festa
descontente com o namorado, por sua empolgação infantil, que destoava do clima
light da moça, ao menos no momento. Ela sai brigada da festa e vai pegar um
metrô. Quando está dentro do tubo vermelho, eis que surge o Tênia, dando uma
dura em um de seus travestis, e, quando vê a bela burguesa, esquece do seu
traveco e parte pra cima da bela mulher.
Faz-se um plano sequência, mas com a câmera
estática, de uma cena de estupro em que o mérito dos atores dói aos olhos do
espectador. Por volta de uns quinze minutos, sem exagero, Tênia fode com o cu
da moça. Como se não bastasse, a violência gratuita não passa de graça, e ele
ainda arregaça com o imaculado rosto da donzela, em golpes forte e brutais,
desfigura o que era lindo. Se a face dela voltará a ser o que era... Não se
sabe, isso o filme não mostra, provavelmente não, por melhor que estejam
evoluídas as técnicas para a cirurgia plástica, com aquele estrago, as
cicatrizes iriam ficar. Aliás que o filme não mostra nem se ela sobreviveu ao
ataque. Além das cicatrizes físicas, caso ela sobreviva, a cabeça, o
psicológico dessa mulher nunca mais seria o mesmo: isso sim seria irreversível,
sem plástica que resolva.
Voltando um pouco mais na história, antes da festa,
uma tranquilidade plena, aquela preguiça da boa, acordando a hora que der na
telha do cochilo da tarde, beijo na boca: amor recíproco. No sono dela, um
sonho visualizando um tipo de tubo vermelho, em que encruzilhadas surgiam,
dividindo os caminhos (metáforas). Banho, café, bem-estar. Ele sai para comprar
uma bebida para levar à festa. Ela faz um teste de gravidez no banheiro. A
narrativa regressa um pouco mais ainda, na manhã do dia. Raios de sol, jardim,
crianças brincando. Ela, deitada, lê em um livro alguma coisa sobre presságios.
Sente algo, desconfia-se grávida. E, se no início a imagem girava no sentido
horário, agora ela gira no sentido inverso, mas tudo o que já aconteceu não
volta mais para ser como era; no máximo sugere uma ideia de como poderia ser,
ou ter sido, vir a ser.
Era uma vez um dia que tinha tudo para ser um belo
dia... Mas, conforme ele vai andando, as coisas vão acontecendo... E logo você
pode cair na merda. E, se pisou na merda, abra os dedos.
O filme não teria o mesmo impacto se rolasse numa
sequência cronológica clara e objetiva. Invertendo a ordem dos acontecimentos,
o irreversível mostra-se realmente sem volta.
Portanto, é preciso atenção para saber onde colocar
o pezinho. O que vai cheirar o seu focinho...