sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Decomposição asfáltica

Havia um caminho. Caminhava, cruzaria ele esse caminho. Num outro, um qualquer, vinha cruzando o mesmo caminho, de forma que horizontais e verticais se encontrariam, como se cruzam as longitudes e altitudes, esbarrando os pontos de encontro nas curvas. Fatalidade acontece. O que ia indo, não vai mais. O que passou varado foi. Que será que se passa na cabeça de quem foi... que ficou a cabeça daquele que não foi. Que sente na mente o que lá vai... nada... (?).

Plafhthiizchssskggfffrraaaieeshh tentativa de reprodução de uma onomatopeia para descrever o som de:

O automóvel passa por cima de matéria: ossos, carne, miolos, pele, pelo: cachorro. Vários automóveis, grandes ou menores, vão passando pela mesma via em cima da mesma coisa que foi um corpo de um ser ainda vivendo na ingenuidade da vida, feliz e sorridente, que abanava um sorriso no rabo, que completava outros por sorrirem também; que transmitia afetos de graça; que mordia para brincar; que amava por amar...

Logo, quase resíduos nenhuns sobram. Pois vão se espalhando

“A vida é um pisca-pisca”, já dizia Emília. E me recordo ainda também de ter lido em Sérgio Sant’Anna, “Conto (não conto)” (?), a ideia de que – parafraseando – o universo não para por causa da morte de um cavalo, ou seria de um macaquinho, ou de um homem, enfim, qualquer que seja, o universo só para para aquele que para de piscar (ou não, de acordo com a hipótese da crença).  

quarta-feira, 31 de julho de 2013

OBRA




Martelo, madeira, prego. Barulho. Pancadas, escombros. Máquinas, areia, água, pedras: cimento. Homens. Falta de uma obra de estudos, trabalho braçal: necessário. Construir uma obra para outras pessoas obrarem suas próprias obras. Uma obra de arte, uma obra-prima (?). Ferros contorcidos, alinhados, desenhados: escultura. Artistas. Seres operando ferramentas enormes e pesadas, queimando combustível para funcionar alavancas, violentas com a barulhada; uma que lembra a infância. Duas casinhas montadas em forma de tripé, defendidas pelos tacos em lados opostos e distantes na rua de asfalto. Um deve derrubar a casinha arremessando uma bolinha, que é rebatida pelo oponente para bem longe (quanto mais, melhor), o que arremessou sai correndo para buscar, enquanto a dupla de tacos cruza o campo de batalha contando os pontos para finalizar – momento em que há a chance da dupla adversária reverter o jogo, conseguindo acertar com a bolinha o corpo de um dos jogadores, recebendo o taco. Mas aqui não há brincadeira, são responsáveis com seus trabalhos para garantir a segurança dos que ali irão morar. Aqui, essa gigante casinha (feita de aço, de uns cinco metros de altura) tem presa no seu topo uma espécie de pêndulo, que soca o chão, fazendo tudo tremer, num movimento contínuo, infinitas vezes, retirando matéria do solo, até explodir a cabeça de quem está ao lado. E como fede essa fumaça que sai da máquina feita de ferro e roldanas e engrenagens e fivelas que alimenta o pêndulo da casinha. Quando a máquina para de operar, solto fogos de artifício, e imaginamos ter um pouco de silêncio e paz, começam a matraquear as bocas dos operários. E como falam besteira. Oh turma pra falar bosta! Você tenta se desligar, não prestar atenção, mas é impossível o zumzumzum ali no seu ouvido. Ouve-se sobre futebol, casos da vida – deles e dos outros... histórias de bar, de bala perdida, de cadeia... uma tagarelice sem rumo, quando você pensa estar entendendo alguma coisa eles já desviaram o caminho da conversa; e riem alto! O gordinho ali é o que menos trabalha e o que mais fala. Puxa conversa, fica no celular... tempo todo no cafezinho (fico imaginando eu escondido na janela dando tiro de chumbinho nele, e ele soltando uns pulinhos, xingando palavrão sem saber a quem – seria engraçado, ou eu que já estou chapado?). Já o senhorzinho de óculos parece ser o mais responsável, que toma conta da eficiência do trabalho. Mais uns quatro paraíba à toa. Os motores não param. Desliga o da casinha com pêndulo e liga aquele outro, da bola aberta, que gira, onde vão jogando matérias... para transformar em cimento. Ficção: visualizo em meu cinema interior a cena: em cima do guarda-roupa pego a minha 12 punheteira, cartucho cheio, toda carregada; abro a janela e, num grito de filho-da-puta, solto uma gusparada de chumbo nas máquinas e, se respingar nos trabalhadores, foda-se. Penso em outra possibilidade, essa mais palpável: pego meu taco de basebol, desço lá e destruo tudo na porrada! Essa é bem enérgica, adrenalina, cinematográfica... mas ... não tenho coragem. Vou sabotar as máquinas, de madrugada, com terra e óleo. Não... Pensei em tentar uma amistosa negociação com o mestre de obras: ir de pantufas, pijama e travesseiro na mão, pedir silêncio, e que trabalhem outra hora. Mas como se está no horário de trabalho de um dia útil. Útil pra dormir, eu de férias, outros horários... não, ele não ia entender... O máximo que consigo fazer é uma prosa com São Pedro. Rogo a ele que chova pra caralho! E não é que ele mandou mesmo uma frente das mais frias do ano no país, com neve no sul e chuva pra cá. Chuva fria da porra. Nem chove pra caralho, mas uma chuvinha gelada pra cacete! O suficiente para eles desligarem as máquinas e ficarem entocados, fazendo apenas alguns trabalhos manuais. Deve ser por causa de o Papa Francisco estar pintando na área, santidade chegou por perto no pedaço e aí abre espaço para as preces das pessoas, ele desperta a misericórdia de Nossa Senhora Aparecida e do Santo Frei Galvão. Aproveitem! Façam seus pedidos! Peçam a paz universal! Eu aproveitei o embalo e fiz a minha fé, deu certo, agora tenho aí uns dias de paz, sem barulho... (pois é já que volta tudo ao normal – a barulheira de sempre na cabeça)...  Fico com pena dos pedreiros ali, naquele frio, encolhidos embaixo de uma cabana improvisada – coitadinho do gordinho deve estar com uma fome... passo um café, vou à padaria, compro um bolo. Levo o café com bolo aos trabalhadores (mentira!). E que Deus seja louvado. Que continue realizando seus milagres, criando suas obras. Afinal, toda obra divina é obra da Natureza. Eu vou construindo a minha, palavra por palavra... cada um constrói a sua, no intervalo de tempo de quando nasce até quando morre, da sua própria forma, mesmo sem saber, sem pensar, sua obra. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Pensamento nômade, Deleuze

Alguma coisa salta do livro, entra em contato com um puro fora.
Um aforismo é um jogo de forças. Não quer dizer nada, não significa nada, não tem significante como não tem significado. A última força, a mais recente, é sempre a mais do exterior.
Se você quiser saber o que eu quero dizer, encontre a força que dá sentido, se preciso for um novo sentido ao que eu digo.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

continuidades sobre vontades, Schopenhauer

Viver é sofre:
A vontade é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; ao mesmo tempo, é a fonte de todos os sofrimentos.
Filosofia pessimista, pois a vontade é concebida como algo sem nenhuma meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente. Sendo um mal inerente à existência do homem; ela gera dor, necessária e inevitavelmente, aquilo que se conhece como felicidade seria apenas uma interrupção temporária de um processo de infelicidade. Para Schopenhauer, o prazer é momento fugaz de ausência de dor e não existe satisfação durável. Todo prazer é ponto de partida de novas aspirações, sempre obstadas e sempre em luta por sua realização: viver é sofrer.
A filosofia de Schopenhauer aponta alguns caminhos para a suspensão da dor: a contemplação artística desinteressada.
Na arte, a relação entre a vontade e a representação inverte-se: a inteligência deixa de ser atriz para ser espectadora. A atividade artística revelaria as ideias eternas através de diversos graus: arquitetura, escultura, pintura, poesia lírica, poesia trágica e música. A música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. A música poderia exprimir a Vontade em sua essência geral e indiferenciada, um meio capaz de propor a libertação do homem.

No nada, a salvação
A libertação proporcionada pela arte não é completa. A arte significa apenas um distanciamento passageiro e não a supressão da vontade. Para que atinja a libertação, é necessário que o homem ascenda ao nível da conduta ética, a qual representa uma etapa superior no processo de superação das dores do mundo.
Sua ética não se apóia em mandamentos, antes na noção de que a contemplação da verdade é o caminho de acesso ao bem.
A superação do egoísmo somente seria possível mediante o conhecimento da natureza única e universal da Vontade. Ao espírito de luta contra os semelhantes segue-se o espírito de simpatia.
O princípio fundamental de toda verdade moral: não prejudiques pessoa alguma, seja bom com todos.
A mais completa forma de salvação para o homem somente pode ser encontrada na renúncia quietista ao mundo e a todas as suas solicitações, na mortificação dos instintos, na auto-anulação da vontade e na fuga para o Nada.
Em vez desse tumulto de aspirações sem fim, em vez dessas passagens constantes do desejo ao medo, da alegria ao sofrimento, em vez dessas esperanças sempre inalcançadas e sempre renascentes, que fazem da vida humana, enquanto animada pela vontade, um sonho interrompido.
A vontade desapareceu, subsiste apenas o conhecimento.     

relendo, interpretando, comentando

Schopenhauer, O mundo como vontade e representação

Considerações melancólicas e pessimistas sobre a miséria da condição humana. Estudos humanísticos, conhecimentos científicos.
Ponto de partida em Kant: estabelecer a distinção entre os fenômenos e a coisa-em-si.; entre o que nos aparece e o que existiria em si mesmo.
“por mais maciço e imenso que seja este mundo, sua existência depende, em qualquer momento, apenas de um fio único e degaldíssimo: a consciência em que aparece”.
“O mundo como representação, unicamente do ponto de vista de que o consideramos aqui, tem duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o objeto; suas formas são o espaço e o tempo, donde a pluralidade. A outra metade é o sujeito; não se encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em todo ser que percebe: daí resulta que um só desses seres junto ao objeto completa o mundo como representação”.
Para Kant, a coisa-em-si é inacessível ao conhecimento humano. Schopenhauer, ao contrário, pretendeu abordar a própria coisa em si. Essa coisa em si, raiz metafísica de toda a realidade, seria a Vontade.
A experiência interna do indivíduo assegura-lhe mais do que simples fatos de ele ser “um objeto entre outros”. a experiência interna também revela ao indivíduo que ele é um ser que se move a si mesmo, um ser ativo cujo comportamento manifesto expressa diretamente sua vontade.
O corpo humano é apenas objetivação da vontade, tal como aparece sob condições da percepção externa. O que se quer e o que se faz são uma e a mesma coisa, vistos, porém, de perspectivas diferentes.
A vontade seria o princípio fundamental da natureza.
Uma vontade única, superior, de caráter metafísico e presente igualmente na planta que nasce e cresce, e nas complexas ações humanas.
Schopenhauer sustenta que o real é em si mesmo cego e irracional, enquanto vontade.
Adolescer

Muito estudo com as matérias? Exatas, humanas, biológicas... Tudo se confunde na magia da pluralidade, nas inter-relações e transitividades entre o céu e a terra, nas convergentes e divergentes direções e vetores transversais, que rasgam o tempo na diagonal da hipotenusa: um leão que late, são trans-intersecções... Estão certos, vocês estão mesmo no momento da dedicação aos estudos, a esse momento de avaliações... Que, na verdade, devemos todos estar sempre estudando – observando e analisando – situações, perspectivas, exemplos, teorias, possibilidades, ideias... Mais do que olhar, o mundo é daquele que tem atitude, tem-se que realizar coisas. A vida nos avalia o tempo todo, e se não estiver preparado, espere para a próxima, mas quem espera sempre cansa; aprender com o tempo, com as merdas, perdas e derrotas é uma das melhores formas de aprendizagem – para quem se reconhece no espelho. Melhor fazer acontecer. Mas saiba, são constantes os momentos de avaliações (no sentido pragmático mesmo da coisa). Após o vestibular, virá a “banca de defesa da monografia”, e, entre uma coisa e outra, estágios, amadurecimento, encontros e desencontros, paixões – quem sabe um porre e uma ressaca – e que seja eterno enquanto dure: a beleza do alvorecer. E depois outras provas e bancadas e testes sem fim: escolhas, alternativas. Aprendi e tento transmitir: foi dentro da sala de aula que brotaram os essenciais embriões para um estilo de vida: pensar. Utilizar o pensamento para criar vibrações positivas, trocando afecções com pessoas que também irão gerar positividade. Fora da sala de aula, na escola do mundo, a vida ensina: ouça o som que vem do universo – que te chama; se joga, vai fundo!     
Aos caros alunos de Campos

quarta-feira, 6 de março de 2013

SOUL


U
   M
       V É
              U 
       S
               O 
              L 
                 T O 
                       A O
                  L
              É
                  U
        IM
SS
A
    E U
          S O
                    U

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

IRREVERSÍVEL - relendo


E por falar em coisas que não voltam... (O leite derramado: deixe o gato lamber; o tempo perdido: valorize a experiência)... O filme Irreversível, de Gastar Noé, 2002, é uma ida sem volta, assim percebe-se a vida, os passos dados, as atitudes tomadas.
“O tempo destrói tudo”. Parece mesmo uma ideia sem exceção, afinal, o que o tempo não destruiria? O amor, a paz, a memória, a amizade...? O abstrato depende, sempre, de um sujeito para que o realize, para que o faça existir. E o sujeito, de carne e osso, esse fácil e rápido o tempo destrói.
Geralmente, não gostamos que alguém conte o final do filme, mas, no caso de Irreversível, a história já começa pelo fim; e, no entanto, a aflição não o deixa se desinteressar pelo resto da história. De forma indigesta, os créditos; a imagem vai girando no sentido horário, deixando tonto, oferecendo um leve enjôo. Um breve diálogo; os personagens saindo fudidos do “Rectum”. A narrativa encadeia-se num movimento retrógrado, em que, a cada cena, volta-se a um momento anterior. Então, a pesar de já se saber qual o final da história, a ânsia é para entender o que os levou até lá.
Os personagens vão se infiltrando, num caminho incerto e desconhecido, pelas vielas do “Rectum” – espécie de puteiro gay de última categoria, que só poderia cheirar mesmo a merda, como indica o próprio nome do lugar: o intestino, por onde o excremento sai – e de lá saíram, anteriormente, excretados, feito fezes.   
Estavam os dois amigos à procura do “Tênia”. E o que significa “tênia”? É uma espécie de parasita intestinal, que provoca a teníase, uma infecção. Tênia, em Irreversível, é esse parasita, uma espécie de cafetão dos travestis e dos putos, que vive nesse tubo infecto, o “Rectum”, onde toda merda se rumina.
As cenas de violência dentro do “Rectum”, quando os amigos pensam ter encontrado o Tênia (sim, pegaram e mataram o cara errado – o que só se percebe depois, com a sequência da irreversibilidade das cenas), são de dar nós nas tripas: um braço quebrado sem dó; uma cabeça esmagada com um extintor; tudo em close, sem prece, nos detalhes, como a digestão.
Agora, por que estavam os dois lá, atrás do verme? Por vingança. Esse outro corrosivo que percorre as veias do humano. Isso se entende, com o decorrer, ou com o retroceder da história. Quando a bela namorada de um (que é também a ex do outro) sai sozinha de uma festa descontente com o namorado, por sua empolgação infantil, que destoava do clima light da moça, ao menos no momento. Ela sai brigada da festa e vai pegar um metrô. Quando está dentro do tubo vermelho, eis que surge o Tênia, dando uma dura em um de seus travestis, e, quando vê a bela burguesa, esquece do seu traveco e parte pra cima da bela mulher.
Faz-se um plano sequência, mas com a câmera estática, de uma cena de estupro em que o mérito dos atores dói aos olhos do espectador. Por volta de uns quinze minutos, sem exagero, Tênia fode com o cu da moça. Como se não bastasse, a violência gratuita não passa de graça, e ele ainda arregaça com o imaculado rosto da donzela, em golpes forte e brutais, desfigura o que era lindo. Se a face dela voltará a ser o que era... Não se sabe, isso o filme não mostra, provavelmente não, por melhor que estejam evoluídas as técnicas para a cirurgia plástica, com aquele estrago, as cicatrizes iriam ficar. Aliás que o filme não mostra nem se ela sobreviveu ao ataque. Além das cicatrizes físicas, caso ela sobreviva, a cabeça, o psicológico dessa mulher nunca mais seria o mesmo: isso sim seria irreversível, sem plástica que resolva.
Voltando um pouco mais na história, antes da festa, uma tranquilidade plena, aquela preguiça da boa, acordando a hora que der na telha do cochilo da tarde, beijo na boca: amor recíproco. No sono dela, um sonho visualizando um tipo de tubo vermelho, em que encruzilhadas surgiam, dividindo os caminhos (metáforas). Banho, café, bem-estar. Ele sai para comprar uma bebida para levar à festa. Ela faz um teste de gravidez no banheiro. A narrativa regressa um pouco mais ainda, na manhã do dia. Raios de sol, jardim, crianças brincando. Ela, deitada, lê em um livro alguma coisa sobre presságios. Sente algo, desconfia-se grávida. E, se no início a imagem girava no sentido horário, agora ela gira no sentido inverso, mas tudo o que já aconteceu não volta mais para ser como era; no máximo sugere uma ideia de como poderia ser, ou ter sido, vir a ser.
Era uma vez um dia que tinha tudo para ser um belo dia... Mas, conforme ele vai andando, as coisas vão acontecendo... E logo você pode cair na merda. E, se pisou na merda, abra os dedos.   
O filme não teria o mesmo impacto se rolasse numa sequência cronológica clara e objetiva. Invertendo a ordem dos acontecimentos, o irreversível mostra-se realmente sem volta.
Portanto, é preciso atenção para saber onde colocar o pezinho. O que vai cheirar o seu focinho...      

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

RECICLANDO leituras - O curioso caso de Benjamin Button



Assistindo novamente a alguns filmes, percebem-se outras coisas. Como sugeriu a mim “O curioso caso de Benjamin Button”, de David Fincher.
A curiosidade é algo inerente ao ser humano, quer-se sempre saber o que há por trás da porta, o que existe por ali, o que acontece por aqui. Possivelmente, quando alguém se encontra na eminência da morte, já vencido o medo, desgarrado de crenças, uma das mais prováveis das curiosidades deve ser: “o que vem depois”. E, de fato, uma coisa é certa, “nunca se sabe o que nos espera”. Pois, numa perspectiva nietzscheana do mundo, da vida, dos fenômenos da natureza, da imaginação e da criação artística, “tudo é possível”, estando já deus morto – ou não. 
Um determinismo às avessas discorre em cena. “Nunca deixe ninguém contrariar você. Tem que fazer o que está determinado a fazer”. Quando, a sua maneira, em seu determinado tempo, cada um constrói o seu próprio destino; a mercê de todos os desequilíbrios que a vida pode improvisar em sua trajetória. 
Florescer e amadurecer são virtudes do ser, que requer persistência, bom senso e determinação. Há de se deixar sentir como “crescer é uma coisa engraçada, acontece de repente”. E não se deve temer envelhecer, pois apenas a casca enruga, enquanto a alma resplandece a cada passo dado, com cada raiar do sol e com cada luar da noite. “Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos? o tempo andou riscando meu rosto / com uma navalha fina / sem raiva nem rancor / o tempo riscou meu rosto / com calma” (Viviane Mosé) – quem percebe, assimila. 
A felicidade é uma invenção da modernidade, seria inviável e broxante passar vinte e quatro horas gozando. A escuridão, pedras e tropeças também devem aparecer pelo caminhar da vida, para que haja a superação, para que aí sim a pessoa cresça, pois o conforto amolece o sujeito. Temos de saber conviver e assimilar as fatalidades da melhor maneira possível, e sentir a dor, quando se dói realmente. Por isso, “a gente pode ficar furioso com o rumo dos acontecimentos. A gente pode xingar, pode amaldiçoar o destino, mas quando chega o fim, a gente tem que aceitar”. Vai nadar contra a correnteza? “(eu parei de lutar contra o tempo / ando exercendo instantes / acho que ganhei presença)” (Viviane Mosé). A cada vez que se levanta do chão, um recomeço espera por você. 
“Nossas vidas são definidas pelas oportunidades, até as que perdemos”. E são as escolhas, os caminhos que decidimos tomar que criam nossos destinos. O inesperado de cada caminhada é que é o clímax da breve travessia. “Às vezes, estamos numa rota de colisão e nem sequer sabemos. Seja sem querer, ou de propósito, não há nada que possamos fazer”. Ora, o esquecimento, o retorno, o imprevisto. E, alguns minutos, instantes, na simultaneidade de outros acontecimentos em outros lugares, os eventos e as coisas se convergem para um mesmo caminho – que criará um determinado momento, que sempre traz alguma consequência. Enquanto um fato se desenrola, outro começa a rolar. Um atraso, um passo à frente, uma pausa, a pressa, um movimento retardado: tudo influi em algum devir. Se e somente se uma das coisas tivesse acontecido de outra forma, em uma diferente ordem, um acontecimento um pouco antes, ou um pouco depois, mudaria todo o rumo das coisas; mas... Tudo pode acontecer. E não seria exatamente assim que deveria acontecer, já que foi assim que aconteceu? (parafraseando Sérgio Sant'Anna). Além disso, “Sendo a vida uma série de vidas cruzadas e incidentes fora do controle de qualquer um”... Acidentes acontecem, e aí só nos resta aceitar. E continuar. E nos reeducarmos novamente, tirando a lição com as consequências. E de novo e quantas vezes for necessário, para seguir com o fluir do universo, enquanto estiver vivo – pois “nada é para sempre”.
Por isso, devemos ter em mente que “Nunca é tarde demais para ser quem você quer ser. Não há limite de tempo. Comece quando quiser. Mude ou continue sendo a mesma pessoa. Não há regras para isso”. Porque na vida se é o que se é. “E não se engane, meu amigo, a vida é uma só” (Vinícius de Moraes). Aquilo que se pensa e a condução de suas atitudes. As ações, por vezes, podem até não condizerem com os sentimentos, no entanto, o ditado popular funciona muitas vezes: você colhe o que você planta. 
E da horta da vida, o que esperar? Tirar o máximo proveito ou o mínimo. Que seja o máximo! Importante é fazer valer à pena, seja como for. “Espero que veja coisas surpreendentes; espero que sinta coisas que nunca sentiu antes; espero que conheça pessoas com um ponto de vista diferente (e isso realmente salva); espero que tenha uma vida da qual se orgulhe. E se não se orgulhar dela, espero que encontre forças para começar tudo de novo”. Na vida, deve sempre haver uma página em branco, para começar um outro parágrafo. 
A memória é um jardim a ser bem cultivado. De fato, “algumas coisas a gente nunca esquece”. Mas... “Tudo bem esquecer algumas coisas”; visto que virtuoso também é aquele que esquece, pois pode encontrar mais espaço em branco na mente para preencher com ideias novas. 
Percebe-se, por fim, que: 
“Algumas pessoas... 
Algumas pessoas...
Algumas pessoas...
E algumas pessoas... Dançam”.
Rejuvenescer a alma é um árduo, porém pleno, trabalho. Mas o tempo... Voltar para trás... Não. Como cantou nosso poeta, “O tempo não pára”. 

“um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo 
se você tem que me comer 
que seja com o meu consentimento 
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo 
de lá pra cá ele tem sido bom comigo 
dizem que ando até remoçando” (Viviane Mosé).

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Três poemas publicados pela Editora Literasas, dezembro de 2012


Pena de um portu-brasil (um poema dadaísta)

Lamba jongo cafundó caxambu
Xingar oxum azoeira iaé
Nhenhenhém ziquizira sacana calunga
Itatiba zonzu odara baquara
Kabu’ré bambarê molambo fungar
Oxumaré guimba diamba ibi
Jagunço mambembe tantã tunda
Aboité yamí fuzuê abá
Muxiba maculelê inhalá abretê
Urucubaca caxangá bagunça titica
Lelé lengalenga banguela lundu
Muamba patota bunda Araxá
Quengo ginga ité puíta
Nambiquara ita banzé samba
Quenga peba goitacá acag
Catinga tiyug zumzumzum raiva
Cafuné nana chilique cubata
Cachimbo xuatê guarani
Yara erê ori abaetuba
Cachaça carioca auá farofa
Abará eçaraia marimba abaçaí
Ig cochilar apuamá iua
Cubata guará capenga exu
Fuzuê avanheenga xodó amerô
Gororoba afoxé anhanguera cazumbi
Moleque Ivã cafofo Ava
Abanheém cari iandê camb
Abaré ete aisó aquitã
Aracê nheengatu catita tiwa
Catimba anama curumim alva
Cafua catinga apoema akag
Iba iviturui maracutaia batuque
Nhe membira muvuca Açu
Acemira rudá tribufu congada
Borocoxô tiririca avati fulo
Babá banzé airequecê yawara


 Pedra para Josés

Uma pedra no caminho tinha.
José fumou a pedra.
José, e agora? E agora, José?
Se tivesse no caminho outra pedra,
José fumaria.
José quer pegar outra pedra no caminho,
Queimar até acabar.
Agora José rouba,
Pra comprar pedra.
Pedra no caminho encontra fácil.
Derrete José.
Qualquer caminho tem pedra.
José mata por uma pedra.
No meio do caminho fuma pedra.
Petrifica, José. 
José tornou-se cinza.
A pedra fumou José.
Muitos josés a pedra pega.
Mata os josés a pedra.
E agora, Pedra?
Que chegue o próximo josé.


 Defenestrando (para Maurício Salles de Vadconcelos)

Infância e história. Performatizar linguagem. Experiência, domínio, discurso. Matriz recriada de sujeito. Arqueologia. Saber. História como teia discursiva. O eu do discurso não é o eu da experiência. Pulsação de vida potencializada com o campo discursivo: lidamos com discursos. Identificação entre Homem e Linguagem. O homem é falado pelo inconsciente, se manifesta pelo que não se diz. Modo de ler operante o ser da linguagem. Genealogia. Modo de operar as possibilidades da história. Vasculhar avessas perspectivas. Escavar os discursos. Quais campos do saber são valorizados. O campo do não dito. Apreender a polifonia. O outro modo de fazer História. O que tem de emergente. Rachar os discursos para não ter o estabelecido. Chegar ao inapreensível. Abraçar o dorso do abstrato. É preciso muita observação para que a observação (coisa observada) observe você. Já dito. Enfrentar as tradições. Problematizar. A terra percebe o cadáver. Exemplo intempestivo. Diz do presente. É emergente. Põe em risco o não dito. O Humano é da ordem do inacabado. A escrita pacifica as angústias nunca acabadas. Mas só ameniza. Depois explodem outras. Desenrola mito. Ser pai é narrar algo. Refrações da memória. As vozes que formam a transitividade. Alguém em relação ao outro em desabrigo. Trabalhar para potencializar a sua história de vida. A epopéia do texto: o risco de descobrir a linguagem. Acordei com uma vontadezinha de chorar. Cortes. Memória involuntária. Estupro e violação: cortar a língua e os dedos para não haver relatos. Conceitual. Sonoro. Imagético. Rítmico. O verso. Ler é criar sonhos. Escrever salvar-se do maremoto. Que esteja em brasa a mente.    


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

“Das cátedras da virtude”



Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. Fugi de todos os que dormem mal e que permanecem acordados à noite.
Não é pouco saber dormir; para isso é necessário preparar-se durante o dia.
Dez vezes ao dia você deve saber vencer-se a si mesmo; isto origina uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.
Dez vezes deve reconciliar-se consigo mesmo, porque é difícil vencermo-nos, e o que não estiver reconciliado dorme mal.
Dez verdades há de encontrar durante o dia; se assim não suceder, ainda procurará verdades durante a noite e a sua alma estará faminta.
Dez vezes ao dia precisa rir e estar alegre, senão incomodar-se-á de noite o estômago, esse pai da aflição.
E se tivessem as virtudes, seria necessário saber fazer uma coisa: adormecer ao mesmo tempo todas as virtudes.
Assim falava Zaratustra