Imagine, com esse frio, quem não tem janela para fechar. Imagine quem não tem um teto para morar, não consegue do frio se abrigar. Imagine aquele que não tem uma xícara de café quente para tomar, dessas que esquenta o agora. Uma bolachinha leve e crocante, de banana e canela, uma fatia de bolo para ajudar a forrar o estômago junto com o café quentinho. Imagina: com fome e não ter onde se esconder do frio!
Imaginou? Como é a face desse ser? Qual a sua estatura? Quanto pesa? Provavelmente imaginou um homem a meia idade, barbado e sujo, que deixou passar as oportunidades, inerte na cachaça, na letargia do tempo, agora já passado, aguenta, fazer o quê? Aí fica mais cômodo de assimilar.
Agora, esforce-se. E imagine que esse ser é uma indefesa criancinha. E que essa criancinha é uma menininha, tadinha. Que já nasceu inserida no gélido da vida: calçada úmida, vento seco, corte na nuca, garoa no pensamento. E certamente a sua mãe também já fora abandonada pela vida, em algum outro canto, e com o seu pai deve ter ocorrido a mesma coisa, e quantos irmãos ela também deve ter perdidos por aí... E isso faz com que os anticorpos dessa raça, que evolui prolifere firmemente em sua cadeia natural. Seguindo pela hereditariedade, fica mais suave de digerir, não?
E se, ao invés desse ser ser humano, imaginássemos um bichano? Ou que tal um singelo cachorrinho? Por que largar num frio desses um cãozinho tão bonitinho? O homem, um tipo de bicho; o cão, outro gênero de animal. Não falam a mesma língua, mas por alguma magia das linguagens internas, existe algo que transita entre os dois, e eles trocam afetos: o cachorro sente dó do homem e sua condição, por isso tenta cativá-lo, alegrá-lo, balançando o rabo, mordendo o tornozelo, convidando para irem vadiar, cheirar os cantos; e o homem, uma complacente piedade para com o cão, por não conseguir compreender a simplicidade da existência da perspectiva canina.
Independente da imaginação de cada um, a agonia do frio, a ânsia da fome, ou a aflição da morte pulsa em todos os seres que vivenciam a experiência de seu próprio devir, e também é tocado pelas formas de vidas alheias, basta o coração bater, o cérebro oxigenado, um sistema em funcionamento. Mas aqui, no momento, há letras no papel, apenas, e não coração batendo. No entanto, a partir do momento em que as letras no papel são lidas, elas levam o cérebro oxigenado a pensar naquilo que a combinação semântica das letras indicam, e o coração que pulsa leva o sistema orgânico que está lendo a ter reações complementares e mais amplas, como um convite: feche o livro, deixe de imaginar, vá passear e observar as coisas do mundo.