Estou
no mundo. Não tenho isqueiro nem fósforo, muito menos gasolina. Mas o
combustível que incendeia está em minha mente, em faíscas, pronto para
explodir. No entanto, posso perder tempo, usá-lo a mercê do meu sabor. Mar no
céu, espuma de onda quebrada, traçados dos ilimitados espaços que se movem. Ao
toque do encontro entre meu tato e o ar, as coisas mudam. Uma ideia passa e
tudo se transforma. Do sol atinjo o mi, corre em mim a cachoeira de fogo. Experimento
um sentimento novo, algo que se anuncia, mas não claramente se enuncia, pois o
enunciado há de se formar ainda. A chama brota, num vazio, onde a concentração
de discursos transitando é tumultuosa. Não sei mais o que é o que. Apenas deixo
o impulso seguir a força de seu querer tornar-se algo, sem cair na mesma rota
ou numa moldura daquilo que parece ser. Sinto apenas uma profunda relação com o
que me toca, então tocamos juntos. Escavando, encontramos o planetário; e já
estou só novamente. A plasticidade da linha do horizonte intervém para abrir em
mim algo que não conseguia ver: o indefinido, que definha, arde, afina,
consome-se e some no espaço. Capto apenas as vibrações desse lugar. Tento ouvir
o que diz esse lugar. Silêncio. Solidão. Milhares de anos em cirúrgicos
movimentos tectônicos, fendas abissais em falhas geológicas. A imagem do
distante me faz sentir como um pingo, sendo absorvido maternalmente pela terra,
e evaporando lisergicamente no vácuo do invisível – o não-pensável que
imaginamos ver na lente da tela interna. Mais de perto, o Carrasco quer trepar
no Zorro. Deixa, são cachorros, que esfolem os cuzinhos.
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