Martelo, madeira, prego. Barulho.
Pancadas, escombros. Máquinas, areia, água, pedras: cimento. Homens. Falta de
uma obra de estudos, trabalho braçal: necessário. Construir uma obra para
outras pessoas obrarem suas próprias obras. Uma obra de arte, uma obra-prima
(?). Ferros contorcidos, alinhados, desenhados: escultura. Artistas. Seres
operando ferramentas enormes e pesadas, queimando combustível para funcionar
alavancas, violentas com a barulhada; uma que lembra a infância. Duas casinhas
montadas em forma de tripé, defendidas pelos tacos em lados opostos e distantes
na rua de asfalto. Um deve derrubar a casinha arremessando uma bolinha, que é
rebatida pelo oponente para bem longe (quanto mais, melhor), o que arremessou
sai correndo para buscar, enquanto a dupla de tacos cruza o campo de batalha
contando os pontos para finalizar – momento em que há a chance da dupla
adversária reverter o jogo, conseguindo acertar com a bolinha o corpo de um dos
jogadores, recebendo o taco. Mas aqui não há brincadeira, são responsáveis com
seus trabalhos para garantir a segurança dos que ali irão morar. Aqui, essa
gigante casinha (feita de aço, de uns cinco metros de altura) tem presa no seu
topo uma espécie de pêndulo, que soca o chão, fazendo tudo tremer, num
movimento contínuo, infinitas vezes, retirando matéria do solo, até explodir a
cabeça de quem está ao lado. E como fede essa fumaça que sai da máquina feita
de ferro e roldanas e engrenagens e fivelas que alimenta o pêndulo da casinha.
Quando a máquina para de operar, solto fogos de artifício, e imaginamos ter um
pouco de silêncio e paz, começam a matraquear as bocas dos operários. E como
falam besteira. Oh turma pra falar bosta! Você tenta se desligar, não prestar
atenção, mas é impossível o zumzumzum ali no seu ouvido. Ouve-se sobre futebol,
casos da vida – deles e dos outros... histórias de bar, de bala perdida, de
cadeia... uma tagarelice sem rumo, quando você pensa estar entendendo alguma
coisa eles já desviaram o caminho da conversa; e riem alto! O gordinho ali é o
que menos trabalha e o que mais fala. Puxa conversa, fica no celular... tempo
todo no cafezinho (fico imaginando eu escondido na janela dando tiro de
chumbinho nele, e ele soltando uns pulinhos, xingando palavrão sem saber a quem
– seria engraçado, ou eu que já estou chapado?). Já o senhorzinho de óculos
parece ser o mais responsável, que toma conta da eficiência do trabalho. Mais
uns quatro paraíba à toa. Os motores não param. Desliga o da casinha com
pêndulo e liga aquele outro, da bola aberta, que gira, onde vão jogando
matérias... para transformar em cimento. Ficção: visualizo em meu cinema interior a cena: em cima do
guarda-roupa pego a minha 12 punheteira, cartucho cheio, toda carregada; abro a
janela e, num grito de filho-da-puta, solto uma gusparada de chumbo nas
máquinas e, se respingar nos trabalhadores, foda-se. Penso em outra
possibilidade, essa mais palpável: pego meu taco de basebol, desço lá e destruo
tudo na porrada! Essa é bem enérgica, adrenalina, cinematográfica... mas ...
não tenho coragem. Vou sabotar as máquinas, de madrugada, com terra e óleo.
Não... Pensei em tentar uma amistosa negociação com o mestre de obras: ir de
pantufas, pijama e travesseiro na mão, pedir silêncio, e que trabalhem outra
hora. Mas como se está no horário de trabalho de um dia útil. Útil pra dormir,
eu de férias, outros horários... não, ele não ia entender... O máximo que
consigo fazer é uma prosa com São Pedro. Rogo a ele que chova pra caralho! E
não é que ele mandou mesmo uma frente das mais frias do ano no país, com neve
no sul e chuva pra cá. Chuva fria da porra. Nem chove pra caralho, mas uma
chuvinha gelada pra cacete! O suficiente para eles desligarem as máquinas e
ficarem entocados, fazendo apenas alguns trabalhos manuais. Deve ser por causa
de o Papa Francisco estar pintando na área, santidade chegou por perto no
pedaço e aí abre espaço para as preces das pessoas, ele desperta a misericórdia
de Nossa Senhora Aparecida e do Santo Frei Galvão. Aproveitem! Façam seus
pedidos! Peçam a paz universal! Eu aproveitei o embalo e fiz a minha fé, deu
certo, agora tenho aí uns dias de paz, sem barulho... (pois é já que volta tudo
ao normal – a barulheira de sempre na cabeça)... Fico com pena dos pedreiros ali, naquele frio,
encolhidos embaixo de uma cabana improvisada – coitadinho do gordinho deve
estar com uma fome... passo um café, vou à padaria, compro um bolo. Levo o café
com bolo aos trabalhadores (mentira!). E que Deus seja louvado. Que continue
realizando seus milagres, criando suas obras. Afinal, toda obra divina é obra
da Natureza. Eu vou construindo a minha, palavra por palavra... cada um
constrói a sua, no intervalo de tempo de quando nasce até quando morre, da sua
própria forma, mesmo sem saber, sem pensar, sua obra.
Espaço virtual que exibe transições do pensamento, traços artísticos e filosóficos da vida.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Pensamento nômade, Deleuze
Alguma coisa salta do livro, entra em contato com um puro fora.
Um aforismo é um jogo de forças. Não quer dizer nada, não significa nada, não tem significante como não tem significado. A última força, a mais recente, é sempre a mais do exterior.
Se você quiser saber o que eu quero dizer, encontre a força que dá sentido, se preciso for um novo sentido ao que eu digo.
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