quinta-feira, 18 de junho de 2015

A propósito da redução da maioridade penal - reportagem publicada na VEJA, em 17/06/2015

“A educação não faz as almas; exercita-as”. Raul Pompeia.

Veja, equívoco de interrogação! Talvez fosse melhor questionar: por que essas crianças fazem essas ações? Pois não adianta ficar tapando o sol com tigela amarela. Qualquer um que cometa um crime deve ser punido, independente de idade e principalmente de condição econômica ou de status social. O “crime” deve ser levado em consideração, cultural e sócio-economicamente. Mas interpretar os motivos pelos quais o sujeito faz o que fez para tentar entender o princípio da não-razão desse marginal – o que beira ou foge às margens impostas socialmente pela História – é essencial para chegar à raiz da questão.
Não que a falta de opções irá justificar a agressão. O fato de o garoto não ter aprendido nada na vida dele além de violentar para conseguir algo que queira; a situação de não ter a base de uma estrutura familiar consolidada; a experiência pela qual passa em seu cotidiano vivenciando agressões ao próprio eu, ao próximo, com o mundo, à vida humana; o caso de não haver perspectivas nem horizontes ao seu amanhã – esses e outros elementos das ciências políticas atuais de nosso país, nada disso pode justificar qualquer ato de abuso que um menor cometa com o seu próximo (?). Da mesma maneira que vemos ricos rapagões da nossa ilustríssima burguesia exercendo delitos transbordantes de ignorância e crueldades, sem conseguir também entender ou justificar quaisquer atos. E pagam eles a pena adequada? Ora, e então o que justificaria bilhões de dinheiros, frequentemente, ao longo da História, desviados por cidadãos-formados/gabaritados-diplomados-corrompidos (os políticos, que deveriam bem administrar e dar exemplos, oferecendo chances de vencer honestamente na vida)? Quais as grandes e motivadoras punições para isso que vemos acontecer? Sem falar dos estelionatários, agiotas, canalhas da pilantragem; os assassinos de aluguel... Qual seria a diferença de um bandido que mata um figurão importante para receber quinhentos mil da criança que mata para pegar cinco reais? A impunidade?
Que a criança esfaqueia para comprar pedra porque não tem imaginação ativa de outra possibilidade de existência, pois seu meio ambiente, seu organismo, seu corpo, já veio de nascença corrompido pelo mau hábito dos vícios; isso já é sabido. Agora, o que não só admira, mas espanta, são adultos formados e informados, de tão inconformados com o espetáculo da crueldade exibido nas imagens cotidianas das crianças, acreditam na primária e facilitadora solução de matar “o pivete” que estupra e mata seria a solução! Não seria esse um princípio terrorista?
Matar meia dúzia de crianças vai fazer qual diferença!? Matar todas as crianças delinquentes seria, portanto, a solução? Por que não matam, então, os playboys que saem ateando fogo por aí? Por que não matar os políticos que roubam o dinheiro público que deveria ser investido na Educação do país?
Então a solução seria matar todo mundo que comete um crime ou que transgride uma norma social...? Similar ao alienista machadiano. Ao sabor ditatorial: cochilou no trabalho, mata! Atrasado, mata! O garoto roubou um celular, mata! O senhor molestou a garota no metrô, mata! O rapaz é traficante, mata! A senhorinha roubou um remédio na farmácia, mata! O cara estacionou na vaga de idoso, mata! A garota cortou a fila do cinema, mata! Não foi honesto com o troco, mata! O aluno jogou papel no outro, mata! Um cachorro comeu a ração do outro, mata! Ultrapassei a velocidade permitida, me mato!
Não é questão de passar a mão na cabeça de ninguém, não! A lei está aí para ser cumprida. Mas quando o é? Basta oferecer educação e oportunidades e fazer justiça de maneira clara e efetiva: redundante e repetidamente, uma justiça justa. Mas, parece que, por aqui, enquanto os maus nadam em contentamento, os bons seguem em seus tormentos. Eis o secular desconcerto-mundo.
As cadeias e seus sinônimos, fundações e casas tais, espalhadas pelo país não proporcionam nada de reabilitação, apenas estágios e escalas para diversos crimes em seus cotidianos e ambientes de selvageria, corrupção e degradação humana. Jogar mais crianças dentro de um desses caldeirões da criminalidade resolveria em quê? Quantos desses estabelecimentos seriam necessários para agregar todos os menores criminosos e delinquentes do país? E daí, não chegariam mais e mais e mais infantos do crime às ruas? Não brotariam mais brotos-tortos para perturbar a paz do bom lar, de onde a indignação lê a manchete da revista?
Roubar dinheiro público é tão violento e pornográfico quanto estuprar. É justamente por roubarem o dinheiro dessas crianças que elas respondem dessa forma, é o que aprenderam, é o como sabem fazer: ação e reação em vias de mão múltipla, pois acaba atingindo a todos nós. Se gentileza gera gentileza, crime gerará crime. É subtraída da criança toda a dignidade desde cedo: toda a família periférica subsiste no mundo marginal com seus atributos e predicados; dificilmente a pobre criança conseguirá superar esse déficit e elaborar uma maneira gentil de retribuir a isso.
Simples assim: se toda a dinheirama que se derrama e evapora das atividades públicas fosse corretamente direcionada aos devidos endereços necessitados e honestamente aplicada para resolver os essenciais problemas, possivelmente todas essas crianças estariam mais interessadas em cuidar de si e de sua família de maneira pacífica, de conviver em ambientes saudáveis e proporcionar produtividade cultural com positividade. E não teríamos que matar ninguém, apenas conviver com boas maneiras, sendo honesto e útil consigo e com seu próximo. Viver descobrindo e compartilhando o sentido da palavra amizade.

Oferecer o negativo e querer cobrar o positivo... Desordem e retrocesso em continuum

segunda-feira, 27 de abril de 2015

INSPIRAÇÃO DA JANELA

Ao oposto de Adamastador, esse gigante é camarada. Com seu peso abandonado sobre a selva, repousa suave. O nariz empinado mira o astro-rei, que já se recolhe por detrás da relva montanhosa. Mantos cálidos e pálidos espalham-se dispersos sobre o seu corpo inerte: neblinas – poeira cósmica em gotículas condensadas lambendo-se umas às outras e escorregando pela superfície dos corpos que arrepiam. As mãos cruzadas sobre o tronco indicam sua tranquilidade geológica: nada coça, nada o faz mover-se. Os olhos cavos são grutas onde se agrupam segredos de São Francisco: cola, Hollywood, éter... Mentes entorpecidas que passeavam por ali na alucinação da escalada daquilo que não se vê, que mal se percebe – juventude irremediável, remediada, adiada, a cada dia a dia, adia; foi. O pé dorme longe de batalhas ou tensões épicas, apenas a exaustiva respiração das gaivotas que rumam ao bosquencantado – da amizade. O vento sopra melodias em harmonia com a pensativa fumaça: a lenta luz solar que se esparrama em compasso sobre o dorso do gigante. Olhos fundos penetram o invisível: o gigante descontrai e acomoda seu corpo glorioso nas fendas tectônicas da movediça lombar-terra, as ervas verdejantes espreguiçam até atingirem o céu. O Gigante Mantiqueira me encara, olho em seus olhos. Ele sorri e pisca para mim. A noite abraça o dia em milimétricos tons variáveis do laranja ao roxo. Último tapa. Passo a cortina, esfumaça a janela. O gigante continua seu sono secular, eu saio a passear.    

terça-feira, 7 de abril de 2015

VIDATRANS

“A vida é um transatlântico, demora pra fazer a curva”[1].

É preciso manter firme o timão, se não a onda desapruma o leme e o barco segue desembestado, vida a fora... Para conseguir atingir um objetivo é preciso muita força de vontade e perseverança, para ultrapassar os obstáculos. Abandonar um vício, mudar de estilo de vida, não é de uma hora pra outra. As vontades são constantes; as recaídas, propícias. Fácil de deixar-se levar pela correnteza, é gostoso boiar à deriva.  Saber escolher a direção e remar forte é fundamental.



[1] Fernanda Torres, no programa Fantástico, Rede Globo, em 5/04/2015.

segunda-feira, 30 de março de 2015

ESFERAS ONÍRICAS

Numa lisérgica transação corrida de caminhão, não me lembro mais bem o que, como... eu mais duas pessoas, quem? um acidente surreal... caminhão seguindo montanha russa a dentro. frios na barriga pelos embalos nos trilhos... voa para uma altura extrapolante da verossimilhança, e quando cai acaba. No hospital, meio que ghost, alegorias explicam didaticamente que os que ali chegaram-chegam estão mortos-morreram. No cômico, uma criança encena à outra que ela acabara de morrer por conta de um tiro, enchendo a boca de um líquido vermelho (groselha) e logo ao beber o líquido ele vasa por vários furos pelo corpo. A criança entende o desenho e logo sorri pela sua sacada. Entendo a morte, e saio tranquilo. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

walking into-night

NA ASA DA ESQUINA

BEIRA DO ABISMO

ABSINTO-ME

ABSORVO

ANDO

VOO

MARIPOSA-CORVO

ALWAYS

ALL WAY-FAR WAY

FUMAÇA NA BRISA

OU

SMOKING INTO THE WATER-OCEAN




domingo, 13 de julho de 2014

MATEUS, Cap. 4, Vers. 4

“Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”.
                                                                          

Se for possível interpretar “Deus” como uma forma de conhecimento, uma maneira de conhecer as coisas, um meio de acessar novos mundos, de conseguir ver possibilidades de poder ser diferente, de criar encadeamentos de postura para conduzir-se na vida, a palavra, a arte – a Literatura pode (e deve) ser levada em consideração como instrumento operante para engendrar pensamento producente de positividade ao envolver o homem à cultura do viver em harmonia com o próximo, em comunidades de amizade: compartilhar o espírito de iluminações e paz. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

POÉTICAS DA DIVERSIDADE - org. Marli F. Scarpelli e Eduardo A. Duarte, UFMG 2002

Leitura-recortes "Derivados da diferença, estenofonia", de Maurício Vasconcelos

Sobre fragmento ensaístico de Avital Ronell, indagações sobre teorias e culturas em circulação. Em movimento corpo-conhecimento. Performance, gestual, conceito e conversa, speech act, a extensão das intervenções da ensaísta.
As produções de Ronell se leem como incisões no interior de uma história não tão recente da desconstrução na América. Consolidação das vias ideológicas por onde transita toda uma série de discursos derivados. Street-talk engendrado como mapeamento do plano dos saberes, diálogo com as matrizes diferenciais de pensar, escrever, falar, ouvir. Corta a rua pluriocidental do momento, ponto convergente de culturas e conversões, múltiplo ato.
Chamado involuntário, atuação da consciência não procede como resposta a uma convocação da voz. Construção da diferença, desconstrução como história. Autoridade de uma presença súbita, não pode se sujeitar a uma vontade nem à força de uma determinação previsível. Em erupção se encontra essencialmente fora de qualquer controle, para marcar o que está fora-de-mão em relação a um planejado nós, nós mesmos.
A ressonância do martelo, a alternância do um/mesmo.
Livro como acontecimento, ruindo a superfície da região que viemos a ter como um livro.
Onde está o outro? Ou quem quer falar?
O trabalho ensaístico de Avital Ronell envolve a captura dos processos de escrita e pensamento numa rede de outras vozes, num plano de ação ou montagem tópico-conceitual em relação ao livro e à atividade analítica do pesquisador comparativista de filosofia, literatura e cultura.  Ronell e seus escritos se pautam por uma ética da decisão traçada após a chamada morte do sujeito humanista. Conceitualizando e configurando a prática diferencial, de modo não substancializado.

Buscam uma performatividade no campo disciplinar em que se movem, retraçando os ditames e os impasses da linguagem, ampliando o conceito de escrita teórica e de livro para o terreno da intervenção cultural.