“O que quer dizer, então, que a arte foi além de si mesma?
Significa verdadeiramente que a arte se tornou para nós um passado? Que ela
desceu nas trevas de um definitivo crepúsculo? Ou quer dizer, na verdade, que
ela, cumprindo o círculo do seu destino metafísico, penetrou novamente na
aurora de uma origem na qual não apenas o seu destino, mas o próprio homem
poderia ser posto em questão de modo inicial?”
Espaço virtual que exibe transições do pensamento, traços artísticos e filosóficos da vida.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Félix Guattari, CAOSMOSE, "Heterogênese"
Na poesia, a subjetividade criadora, para
se destacar, se autonomizar, se finalizar, apossar-se-á:
1) Do lado sonoro da palavra, de seu aspecto
musical;
2) De suas significações materiais com suas
nuanças e variantes;
3) De seus aspectos de ligação verbal;
4) De seus aspectos entonativos emocionais e
volitivos;
5) Do sentimento da atividade verbal do
engendramento ativo de um som significante que comporta elementos motores de
articulação, de gesto, de mímica, sentimento de um movimento no qual são
arrastados o organismo inteiro, a atividade e a alma da palavra em sua unidade
concreta.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Cindy, conto de COLORIDO
O Príncipe ia dar uma festa, Cindy era louca por ele. Queria
por que queria, daria tudo por uma noite com o Príncipe. Mas sabia que seria
impossível devido à incompatibilidade dos sexos, porque Cindy não era Cindy,
era, na verdade Xandão. Cindy era o nome que fantasiava a mente de Xandão.
Xandão era traveco.
Onze horas da noite. O salão de festas da mansão do Príncipe
deve estar enchendo a estas horas. “E agora? O que faço?” Se perguntava Xandão
em prantos, nu à frente do espelho em seu quarto. Quinze pra meia noite, Xandão
na deprê encolhido em cima da sua cama. “Eu mereço! Sei que mereço mais do que
qualquer uma passar esta noite com o príncipe.” Xandão viu a lua brilhando pela
janela, o céu estrelado; foi à janela e do fundo do seu coração suplicou: “Se a
senhora existe, por favor, me socorra!”
O brilho hipnotizante das estrelas invadiu o quarto de
Xandão e dele surgiu a Bruxa Madrinha. Linda feiticeira, lingerie branca
contrastando com sua pele negra, um batom sangrento de tão rubro que era, explodiu
gigante e escultural, rebolando um funk no meio do quarto, flutuante à frente
de Xandão.
“Sua voz foi ouvida e seu desejo se realizará. Qual o seu
desejo?”
“Quero virar Cinderela. Quero ser a mulher mais bela está
noite, para o Príncipe conquistar.”
“Seu desejo se realizará, mas se manterá por apenas doze
horas. Preste atenção, o relógio já vai bater meia noite, você terá até meio
dia, aí então o feitiço se acaba e você torna a ser essa coisa
pobre-fedida-cheia-de-pelos.” - “Ai que nojo, Madrinha!” - “Bom pra você, minha
querida?”
“Sim! Lógico! Será um sonho!”
Em meio a fogos de artifícios Xandão se transforma em Cindy,
a mais bela.
“Agora vá, minha filha! Carpe Diem! E seja feliz.”
Pum, a bruxa madrinha desapareceu e Cindy foi correndo para
a festa.
Cindy estava esplendorosa, se destacando entre todas no
salão. Com uma taça de champanhe parou ao pé da escada. Mal o Príncipe saiu de
seus aposentos, já meio grogue e entorpecido, e já avistou a linda dama. Desceu
e foi direto a ela. Sem nenhuma palavra valsaram. Mudos subiram para os
aposentos. Lá, gritos despedaçantes, gemidos e sussurros de prazer toda a
madrugada. Alvorada chegou com o orgasmo matinal. Cindy até então ainda era
virgem, há algumas onze horas e meia, agora decidiu se entregar por inteiro e o
Príncipe insaciável, tarado, não perdoou o cu da bela Cinderela. Enquanto
estava sendo alvejada lancinantemente por trás, viu no relógio da parede os
últimos dois minutos de fantasia. Tudo ia se acabar e o príncipe ainda ia
demorar a gozar. Imaginou o que aconteceria ao príncipe se de repente se
encontrasse metendo num cu peludo e não mais naquela bundinha lisa e cheirosa.
Achou melhor interromper e desaparecer. Num surto, Cindy se desprendeu do
Príncipe e saiu correndo do quarto corredor a fora. O Príncipe ficou
desentendido. Xandão foi voltando à realidade. Com o saco e o pau na mão, saiu
do castelo até ganhar a rua. Chegou em casa nu.
O Príncipe não entendeu nada. Ficou desiludido, desanimado
vagando pelos corredores mórbidos, voltava para o quarto, se lembrava de toda
lambança que fizera a pouco com a linda ninfa. De ímpeto resolveu que a
encontraria novamente. Mas como? Nem o nome dela ele sabia. A única lembrança
dela que tinha clara em mente era seu lindo e belo e cheiroso e saboroso e rosado
cu. Decidiu então começar procurando por ai.
O Príncipe foi com sua pesada escolta batendo de casa em
casa para encontrar o cu da linda Cinderela. Chegava, invadia e mandava que
todos arriassem as calças para o Príncipe. Com certeza ele reconheceria, e se
excitado ficasse, não haveria dúvida, seria ela.
Depois
de muitas frustrantes tentativas, tantas bundas sujas e fedidas, já desanimado,
quase desistindo, foi ao último moquifo do beco sujo. Dessa vez não chegou
invadindo, bateu à porta. Não atenderam. Foi entrando silenciosa e
vagarosamente no moquifo. E lá estava, Xandão de ressaca, de bruços. O cu de
Xandão brilhava pra lua. Antes que o príncipe reconhecesse, seu pau o entregou
enrijecido. Encostou a porta e foi terminar o inacabado. Xandão acordou com a
graciosa pica do príncipe, quente e dura, entrando em seu corpo. Sem querer
entender, apenas gozando, deixou que o iluminado lambuzasse toda a sua
bunda.
Na noite seguinte, na mais grandiosa festa, no principal
salão real, bailavam Xandão e o Príncipe, às vésperas das núpcias.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Sonhos de zé
O sonho de zé, sabe qual é?
Sonho de zé é chegar na porta da
faculdade e convidar as gatinhas das “comunicações” (rádio TV, relações
públicas, publicidade, jornalismo). “Ai! Nossa, como minha agenda é lotada! Ai!
Tanta correria!” pra (foder) “tomar”
alguma coisa.
***
- E ai, minas. (vamo foder pra
caralho hoje!) O que vocês acham da gente tomar uns chopps?
- Ai, zé, naquele boteco engordurado
da esquina eu não vou não.
- Que
isso, a gente pega o carro e sai pra procurar um lugar legal. (agora fodo essas
vadias).
(nossa olha o zé, carrinho e tal.
Quem sabe hoje até rola alguma coisa...)
Oh, lá vai o zé arrastando três
bocetinhas ambulantes.
(nem que seja só uma chupeta)
- Som maneiro, hein zé
- É! É!
Tu ts ta ts tu ts ta ts tu ts ta ts tu ts ta ts tu ts ta
ta ta ta tu ts ta ts tu ts ta tata ta ta
puts puts puts pupuputs puts puts
pupuputs puts puts...
- E ai,
vamo toma aqui memo?
- Oi?
- Vamo
toma aqui memo, (caralho)?
- Hein?
- (vai
toma no cu, porra.) Vamo bebê aqui memo?
- Eu
não tô te ouvindo, zé!
- Vamo
bebê aqui memo?
- Ai,
com som nas alturas não dava pra ouvir nada. Hum, você quer tomar aqui? Aqui é
caro...
- Que
nada! Pega nada não, mina. Hoje vai no cartão. Vamo aí!
- ...
Nossa zé, você ficou meio bêbado heim.
-
Também só bebeu uísque.
- Todo
mundo só bebeu uísque hoje, querida.
- Rá,
rá, rá!
- Então
muierada, vamo todo mundo lá pra casa hoje.
- Ai,
eu não posso. Tenho salão amanhã cedo.
- Ih...
- Eu
também não. Academia todo dia de manhã. Ela vai.
- Ih...
Ô mina, você também vai me deixar na mão?
- Não
zé, vamo lá.
- É, e
a gente vai fazer um amorzinho gostoso?
- Vamo
zé, vamo lógico! Você acha que eu vou lá pra quê?
-
Auuuuuuu!
***
- Hei,
acorda zé! Vai lá apertar o botão da máquina, zé. Vai girar a manivela, zé!
Porra, zé! Tá dormindo no trampo de novo, zé?! Assim não dá, zé! Vamo trabaia,
vamo!
- Ué?
Ué? Cadê minhas muié?
E, zé
mané!
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Procuro - COLORIDO
Procuro doméstica
pra duas vezes por
semana.
Faxina, lavar, passar
etc.
ap. pequeno, homem
solteiro.
Tel. 231 1694, Rua
Tequero. Ap. 33
Vila só isso - FD
Imagina
que eu vou pagar $10 pra uma puta chupar meu pau. Tem viado aí que paga $20 pra
chupar essa rola aqui. Assim pelo menos ela vem até aqui, eu não gasto
gasolina, faz uma faxina, eu pago, ganho uma chupeta de brinde, uma fodinha
rápida, e o melhor: ela não é puta.
Carol
Alto nível,
inteligente, carinhosa, loira,
lindíssima, olhos verdes,
1.87, corpo escultural,
seios fartos e firmes,
rostinho de boneca,
cintura fina, pernas
grossas, sem frescura.
- Já tem experiência com faxina, Carol?
- Sim.
- Também não é preciso, não é. O que não souber aprende,
é fácil. A casa é pequena, não tem muito trabalho. O importante é manter tudo
limpo e organizado, só.
- Seu Maurício, já terminei as louças, o senhor vai
querer a chupeta agora ou depois?
- Daqui a pouco, meu amor. Primeiro faz um cafezinho.
- Sim senhor.
- Pronto, Sr. Maurício. Nossa senhora, seu Maurício, mas
que animação toda é essa?
Ai, seu Maurício, calma
que isso dá processo. Ai, seu Maurício... Que pinguelão, seu Maurício!
Chup! Chup! Chup!
- Vem cá meu docinho. Senta aqui no colo do titio. Isso.
Deixa eu dá uma piruzada nessa bundinha mais gostosa.
- O Senhor quer que eu tire a calcinha, seu Maurício?
Não... É? Deixa de lado? Assim? Ai, puta!? Ai, seu Maurício, fala assim eu fico
até emocionada. Ai, bate! Bate! Na bunda, bate! Bate!
- Uau, seu Mauricio.
Pof! Pof! Pof! Atolando no rabo da vadia.
-
Agora vira, vem cá, chupa! Aí, aí! - Três jatos melados na cara dela. - Lambe.
Engole tudinho. Isso, linda.
- O senhor escroto, comedor de puta, fode viado, porco de
estomago e tarado de sexo, aceita a senhora puta gostosa, inocente vadia sem
oportunidades desperdiçadas, no sofá e na cozinha, na cama e no chuveiro, de
chapinha ou sem, estrias sim gordura não, se mais rico não, se pobre sim, se o
senhor doente, sim, ela não, o senhor morto ela continua dando, sim?
- Aceito.
- E a senhora puta não tem o que querer aceitar.
Simplesmente aceita calada. No máximo um gemido falso.
- Hum, hum.
- Vai, mexe essa bunda gorda, traz minha cerveja e vai
fazer um bife com cebola pro seu macho, porra!
- Ué, seu Maurício, o senhor não ia querer a chupeta
agora?
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Paraíso, COLORIDO
Carta de Bill Clarity.
Porto Seguro - Bahia - Brasil, Fevereiro de 2004.
Senhor:
Visto que trabalhei na sua assessoria por três
árduos anos, sem folgas, sem nenhuma férias, fiquei realmente agradecido pelas
férias que o Senhor insistiu em patrocinar e grato por ter arranjado tudo e
escolhido o meu roteiro.
Resolvi escrever para lhe contar como foi a
viagem e como vão as coisas por aqui.
O embarque no navio em Miami foi rápido. Um
solzinho agradável, mas fui para o meu quarto dormir. Estava muito cansado,
apaguei, dormi por muito tempo, nem sei quantas horas. Quando acordei estávamos
parando no Caribe para outros turistas com o mesmo destino embarcarem. Fui
andar pelo navio. Fui ao restaurante almocei uns frutos do mar que não me
lembro o nome, estava horrível. Em seguida peguei um jornal, e cá para nós, sua
imagem não anda muito boa mundo a fora. Fui para a proa, um garçom passeando
com uma bandeja com taças de champanhe me ofereceu uma, peguei duas, uma para
mim, e outra para uma moça linda que estava encostada na grade com olhar
perdido. Ela era cubana, e assim que disse meu nome ela pegou o champanha e
saiu andando sem me dizer o dela. Acendi um cigarro e um rapaz, também
americano, veio me pedir um. Dei, ele pediu o isqueiro, acendi e ele começou a
falar da vida dele, que estava se divorciando e então resolveu fazer o cruzeiro
para arejar a mente. Seguimos a viagem ali na proa tomando champanhe, ele ficou
falando do seu casamento, os problemas que levaram ao divorcio, e logo percebi
que ele era um corno, idiota, avarento. De repente ele silenciou e pensou que
ela poderia estar com outro e hesitou em pular, mas aí o capitão anunciou que
logo estaríamos chegando ao destino. Brasil. Ele desistiu de pular.
Avistamos terra. Respirei fundo e um ar inebriante
encheu meus pulmões. Conforme fomos chegando, percebemos que na praia havia
muita gente. Quando desembarcamos ouvi uma música com uma melodia animada,
olhei para a praia e todos dançavam alegremente. Um guia disse que estávamos
chegando em Porto Seguro ,
que a parada duraria duas horas e depois partiríamos para uma ilha, também no
território brasileiro. O rapaz que conheci na proa desapareceu no tumulto para
sair do navio.
Desci do navio e fui andar pela praia. Fiquei
desgovernado, sem saber para que lado olhar. As mulheres daqui se vestem muito
bem, um pouco menos e ficam completamente nuas. Mas também, com esse calor, é
bem propicia a nudez. São de tamanha lascívia os trajes que elas usam. Um micro
biquíni deixando as nádegas todas de fora, e que belas nádegas têm todas essas
mulheres, todas muita animadas, com um rebolado inefável. Acho que é essa
música que é tão envolvente, todos no mesmo ritmo, fazendo coreografias, chega
a ser cômico.
Encostei no balcão de um quiosque e me flagrei batucando no balcão,
aquela música já me conquistara. Apesar de falarmos línguas diferentes, nos
comunicamos muito bem eu e os nativos. Nem havia pedido nada para o homem do
bar e ele já me deu um suco de limão, muito forte inclusive esse suco, mas era
uma delicia, não conseguia parar de molhar a boca com ele. Não sabia o preço,
mas achei que cinco dólares deveriam pagar, e assim que dei a nota ao dono do
bar ele me deu várias fichas que valia o suco de limão que eu bebia, adorei. Na
ficha estava escrita a palavra “caipirinha”, a primeira palavra que aprendi em
português.
Entrei no clima da festa rapidamente, não tinha
como fugir, era contagiante. Uma negra veio dançando em minha direção, que
suingue, que rebolado. Veio me olhando sedutora, girava em torno de si mesma rebolando,
que pernas, ela mexia aquela bunda como ninguém, nunca vi coisa igual, fiquei
excitado e com vontade de ir apertar as nádegas dela, mas fiquei com receio de
desrespeitá-la, com medo de ser preso, não sei, mas fiquei na minha. Ela olhava
e sorria, fui tentar dançar com ela, e ela dava vastas gargalhadas. De certo
que eu não levava jeito para a coisa.
Sem palavras ofereci a ela uma caipirinha, ela
aceitou e ficou dançando ao meu lado. A música estava muito alta e ela ficava
gritando no meu ouvido: “Carnaval! Carnaval! Samba! Samba!” E rebolava e me
seduzia. Depois de três copos do suco de limão, e muito pula-pula, comecei a
sentir muito calor e quando estava pensando em tirar minha camisa, a negra a
rasgou e jogou no chão. Para mim foi um grande favor. Fiquei só de bermuda e me
senti muito melhor. Quando dispencei os sapatos, fiquei muito mais aliviado. As
fichas do suco de limão tinham acabado então fiz um sinal com a mão para o cara
do bar levantando dois dedos e gritei: “Caipirinha! Caipirinha!” Ele sorriu e
me trouxe dois copos do suco de limão. Um para mim outro para a negra. Fiquei
curioso para saber o nome dela, e quando perguntei, ela não entendeu. Pegou-me
pela mão e fomos em direção à avenida. Lá havia um caminhão com uma banda em
cima e em volta do caminhão uma multidão pulando. Estava de mãos dadas com a
negra e disse a ela repetidamente:
- My name is
Bill. What is your?
Repeti várias vezes até que ela me ouviu e
disse:
- Meu nome é Eva.
Eva... Tão simples tão charmosa. Linda! Cabelos
trançados, olhos grandes e negros como sua pele. Seios fartos e firmes,
barriguinha lisa, mas nem vou me atrever a descrever aquela cinturinha, aquele
quadril, aquelas pernas grandes e grossas, bem torneadas, as nádegas fortes. E
assim como Eva, outras milhares, todas aliciadoras, farreando pelas ruas.
Olhei no relógio, eram quatro e meia da tarde de
uma segunda-feira. O povo aqui não trabalha? Pensei. Lembrei-me do navio, a
essas horas ele já devia estar partindo para ilha. Não fiz questão de ir, nem
me preocupei. Depois eu dou um jeitinho. Já estava me familiarizando com os
brasileiros e já estava dominado pelo clima de festa.
Eva ia me puxando pela mão e pulando pela
avenida. Ela pegou um pequeno tubo da mão de uma garota e ficou espirrando na
minha boca, eu ia respirando e ficando meio tonto, um tilintar de pirlimpimpim
e tiriririri muito simplesmente engraçado. De repente senti uma deliciosa
sensação, parecia que estava levitando. Parei, fechei os olhos e deixei aquela
deliciosa sensação tomar conta de mim. Minha mente foi-se em devaneios
entorpecidos, o raciocínio se perdeu e senti Eva me abraçando, e quando abri os
olhos ela me envolveu num beijo embriagante.
A noite caiu. Céu maravilhosamente estrelado. A
gandaia não cessava nunca, já estava começando a me sentir exausto, aquele suco
de limão deixou minha cabeça pesada. Disse a Eva que precisa de um hotel, ela
entendeu rápido, e achamos um “Hotel Plaza”, que existe em qualquer lugar do
mundo. Eva me acompanhou. Entramos no apartamento, primeiro fizemos amor, no
chão mesmo, depois tomamos banho, nos deitamos. Não conseguia sair de cima da
Eva. Ela se levantava para ir até a cozinha pegar uma cerveja, que, diga-se de
passagem, é bem mais saborosa que a daí, desce estupidamente redondo, quando
ela abria a geladeira eu já estava grudado nela apertando suas nádegas, ela
sorria seu riso sedutor e abria as pernas. Em cima da pia, na mesa, na estante,
na banheira, na cama, na parede... Indescritível atração.
Paramos para fumar um cigarro, liguei a tv,
passava um noticiário e, apesar de não entender uma só palavra, pelas imagens
somente violência, corrupção, medo, miséria, guerra, fome, desemprego, e apesar
de tudo isso, para finalizar o noticiário e amenizar as tenções falaram de
futebol e mostrava todo mundo sambando.
No dia seguinte, de manhã, estava sentindo uma
dor de cabeça, Eva me convenceu a ir à praia. Ela me trouxe um coco cheio de
água gelada, doce, muito saboroso, em seguida entramos no mar, água límpida,
agradável, e quando saímos já não sentia mais a dor de cabeça. Olhei para o
horizonte, para a paisagem em volta, para as mulheres ali perto. Paradisíaco!
Eva chegou com uma caipirinha, me deu um beijo, fomos para uma roda de samba. É
de enlouquecer ver aquelas mulheres sambando, e sem que você queira, sem perceber,
sem saber, você já esta sambando. Desajeitado, mas sambando. Depois de mais
algumas caipirinhas surgiu de novo um caminhão na avenida com uma banda e a
multidão pulando em volta.
Em plena terça-feira, o povo aqui não trabalha? Pensei
novamente. Eva me trouxe um cigarro, ela apontava para o cigarro e para o chão,
para o cigarro e para o chão, acho que ela queria dizer que era típico dali.
Fiquei fumando e tomando a caipirinha, sentei embaixo de um coqueiro e me deu
uma enorme preguiça de fazer qualquer coisa. Encorajei-me e fui até o bar pedir
outra caipirinha, fiquei curioso e pedi para que o rapaz me ensinasse a
preparar. Ele me revelou o segredo do drink. Quando houver oportunidade,
preparo uma. Voltei para encontrar Eva, ela nos levou para um canto mais
tranqüilo da praia, havia uma rede, nos deitamos abraçados e a primeira coisa
que se passou pela minha cabeça é que daqui não saio mais, pelo menos enquanto
durar o carnaval.
Aqui é um
paraíso, tudo muito sossegado, sem estresse, muita mulher bonita, muito sol, o
mar lindo para refrescar e a caipirinha... isso o senhor deveria experimentar!
Muita alegria, apesar das desgraças. Um povo meio despreocupado, muito feliz,
acolhedor e simpático.
Uma semana se passou, e descobri que aqui é
carnaval o ano inteiro, todo dia é dia de festa. Isso que faz o Brasil ser o
que é.
Então, conheci D2, que me apresentou a maldição
do samba e me ensinou a rimar, aí, “Subi no morro e bebi cachaça, fumei maconha
e obtive a graça. Depois do samba minha vida nunca mais foi a mesma.” Escrevi
para lhe informar que encontrei o meu lugar e que não volto mais. Adoraria
convidá-lo para passar as férias aqui, mas descobri que devido a sua alienação
e ganância, o senhor não é bem vindo. É uma pena.
Bye bye, see you!
Atenciosamente, Bill Clancy.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
"Lucidez", COLORIDO
Depois de muito tempo consegui algum para matar a saudade de
uma pessoa muito querida, quanto tempo não o via, meu irmão; partiu logo após a
morte do nosso velho. Meio sem rumo, foi para esse lugar: uma comunidade
distante, num litoral, não sei nome. Não sei por que, mas ele tinha lido algo
em algum lugar sobre certa seita, parece que uma comunidade que lhe chamou a
atenção para um novo modo de vida.
Ele já me esperava desde as sete e meia da noite, agora eram
oito e meia, no ponto da rodovia que eu tinha de pedir para o motorista parar o
ônibus. Ele estava empolgado, animado e curioso para ir me apresentar o tal
lugar diferente, talvez também pela saudade, ambos estávamos ansiosos. Lugar
conhecido por alguns poucos, que se libertam dos apegos subsidiários para
experimentar outras perspectivas; sentia algo prometendo que dessa vez seria
diferente a experiência.
Após o saudoso abraço, uma longa contemplação entre um e
outro – o outro no um -, sem delongas entramos no carro e fomos. As novas iam
surgindo como as antigas ladeiras que íamos subindo e descendo, algum tempo
olvindo Villa Lobos, passamos dos limites da cidade. Havia uma bifurcação e
duas estradas: a da esquerda, estreita e esburacada, o carro mal passava. A da
direita, larga, espaçosa, lisinha. “Entrem pela porta estreita, pois larga é a
porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por
ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos
os que a encontram.” Ele indicou o caminho ao carro, guiando pelo volante, na
escolha fui junto. Fomos pelo sinistro caminho. Só nós dois, eu e meu velho
irmão. O rumo ele sabia bem, já o caminho, fomos tateando. Não me contou o
destino, mas seguimos como se o corpo fosse levado por osmose.
Chegamos à comunidade, o clima esotérico dominava o
ambiente, fomos bem vindos. Meu irmão já conhecia os xamãs dali, o orixá nos
recebeu de braços abertos e todos os santos nos trataram como familiares.
Tomamos uma pura água, nem gelada nem morna, como tem que ser: límpida e
insípida, apenas o suave sabor da vida. Sentamos em volta da fogueira, os
tambores começaram a repicar, lindas ninfetas selvagens, virgens, esculturais,
delicadas, sensuais, seminuas, nos serviram graciosamente um licor escuro e
amargo com raízes e ervas, o ritmo alucinado dos cachimbos nos envolvia cada
vez mais. O Xangô sentado numa espécie de trono tinha uma ninfeta em seu colo;
pele morena de um suave bronzeado, lábios úmidos, boquinha e nariz miúdos,
seios cheios, firmes como uma pêra, seus olhos castanhos combinavam com seus
cabelos ondulados, que batiam um pouco acima de sua grande anca, que emendava
num belo par de coxas grossas, a pele lisinha... Em uma das mãos tinha um sapo,
com a outra, ela acariciava, com o indicador, as costas do sapo e depois levava
o dedo à boca do pajé. Fiquei observando, o chefe percebeu e me chamou. Fui com
receio. Ele me ofereceu, na hora não sabia se era a ninfeta ou o sapo, por via
das dúvidas, com medo, receio de ser inconveniente, aceitei. A ninfeta pediu
para que eu me sentasse aos seus pés, ainda acariciando o sapo. Em seguida, ela
pôs o indicador nos meus lábios suavemente, comecei a lambê-lo, ela tirou,
passou novamente no sapo e depois voltou a pôr em minha boca. Chupava seu dedo
como se estivesse sugando sua alma, e sentia uma sensação inefável, inebriante.
Abri os olhos, os dela estavam fechados e sua língua passeava entre os seus
lábios úmidos de prazer. Dei uma leve mordida no seu dedo, ela despertou. O rei
tomou o sapo da sua mão e nos apontou uma cabana.
Levantamos, dançamos juntos uma dança afrodisíaca, na cabana
copulamos alucinadamente, com nossos corpos se guiando sem buscas, apenas indo
onde for. Juntos chegamos ao paraíso do prazer: euforia no nirvana e extasie ao
deslizar pelas plumas.
Saí da cabana para admirar o colírio: o mar, a lua e as
estrelas estavam excitantes. A garota me chamou de volta à barraca, não quis
voltar, preferi tragar ar puro. Todos continuavam a dançar em volta da grande
fogueira. Os movimentos dos corpos balançando... Parecia que iam voar ou se
transformar em algo para isso. Meus olhos piscaram lentamente, e, agora, eles
já eram seres de outra espécie. Flores! Borboletas! Flores e borboletas
dançando alucinadas. Dançavam com o fogo ardendo hipnotizando todos que o sentiam.
As estrelas rebolando freneticamente era tão cômico quanto a
lua girando desgovernada. Harmoniosamente bucólico.
De uma crise de risos entrei num desespero fulminante.
Esfregava os olhos e continuavam aquela dança, aquele fogo. Eu sou real, meu
pensamento não. Real e surreal fundindo a racionalidade irracional, a razão se
esvaindo como a fumaça do cachimbo. A ilusão firmando-se razão. Olhei em volta
e não encontrei meu irmão. Somente os seres dançando.
Sai correndo pela estrada, sem noção de onde iria. De
repente vi meu irmão com o carro atrás de mim, desviei o caminho para o meio do
mato na beira da estrada, continuei correndo desesperado, sem rumo, não queria
vê-lo, queria a solidão, a meditação. Depois de despistá-lo caminhei algumas
horas até chegar num vilarejo abandonado. A única coisa que se destacava entre
as pequenas casas da vila era a torre da catedral. Fui à direção da catedral, a
porta aberta, entrei. Caminhei pelo corredor escuro e frio, algumas janelas
quebradas, um vento gelado passava, alguns milagreiros me olhando desconfiados
do canto, outro de cima, dois lá na frente uma outra nos fundos, todos olhavam
com olhos arregalados, com uma interrogação estampada no olhar. Olhavam, mas
não se manifestavam. Só me olhavam, o que será que enxergavam? Olhar terno?
Olhar furioso! Um suor gelado me escorreu pela nuca.
Cheguei ao altar e me ajoelhei, fiz o sinal da cruz.
Implorei misericordiosamente por lucidez... Um sopro rouco soou no meu ouvido
pausadamente:
- Viu, você não quis experimentar, agora agüenta!
Senti um calafrio, fiquei em choque e sai correndo da
igreja, os abençoados me expulsavam com gritos e gargalhadas medonhas.
Sem fôlego, parei de correr e continuei andando por alguma
rua desconhecida do vilarejo. Um vento frio. Meti a mão no bolso e encontrei um
cigarro, acendi e continuei andando pela neblina. Meus passos estavam
flutuantes, mais largos, parecia que estava em degraus, mas estava em chão
reto. Avistei um muro de concreto com uma grade alta de ferro, fui seguindo o
muro para ver onde iria dar, na esquina do muro, no alto da pilastra, uma
gárgula me encarando mal humorada, em seguida, um grande portão de ferro e
outra pilastra com outra gárgula, essa, com um sorriso irônico. O portão estava
fechado, sem cadeado, porém fechado. Olhei para a gárgula que sorria, ela me
convidou para entrar. Na reta do portão um caminho iluminado pela lua, já
fatigada, seguia para um bosque de árvores nuas.
Um relâmpago, um vento frio, a neblina se abriu, e com ela o
portão.
Dei um passo curioso em direção à porta. Hesitei. Olhei
novamente para a gárgula, ela não me olhava mais, a outra também me ignorava.
Estava só. Soltei o cigarro e caminhei adentrando, seguindo o caminho que a lua
iluminava. Deserto.
Grandes crucifixos, túmulos sem flores, mensagens sem
sentido para as fotografias sem brilho. Fora o assobio do vento frio, era um
silêncio total. Um silêncio muito frio.
Caminhei entre os túmulos. Agora estava tranqüilo,
despreocupado, respirava fundo e sentia uma paz me entorpecendo, já não sentia
mais nada, o raciocínio falhava. Meu corpo virou para o outro corredor, vozes
trêmulas me chamavam... Quem?
Logo à frente uma sepultura, meu irmão estava deitado nela,
ao seu lado o pai nosso. Sua mão acenou para mim, os dois estavam felizes,
sorridentes. Deitei entre eles, me aconcheguei. Confortável, quentinho.
Fechamos os olhos.
E a
lucidez...
sábado, 1 de setembro de 2012
Cactu e Peyote, COLORIDO
Cactu
e Peyote
Peyote
vinha andando pela estrada sertaneja com seu jeans desbotado, sua camisa xadrez
aberta, a boina, a mochila, os colares, os anéis, as tatuagens e brincos. O
desanimo, o cansaço, e a fome também o acompanhavam.
No
fundo da estrada, no sentido oposto ao que Peyote caminhava, surgiu uma barca
velha levantando poeira. Era Cactu que vinha distraidamente fumando seu
cachimbo.
Cactu: Pra onde você vai?
Peyote: Não sei.
Cactu: Entra aí, eu te levo.
Peyote: Pra onde?
Cactu: Sei lá!
Peyote: Vamo bora!
Cactu: Quer fumar?
Peyote: Quero sim.
Cactu: Vai fazer o quê?
Peyote: Não sei. Legal esse
reggae.
Cactu: Posso dar um tapa? O que
você faz?
Peyote: De tudo um pouco. Como,
bebo, cago, me apaixono, trepo, gozo. Mas também trepo sem me apaixonar, gozo
sem trepar. E você?
Cactu: Eu também trepo sem me
apaixonar.
Peyote: Eu me referi se você
trabalha?
Cactu: Não. Não trabalho.
Peyote: E vive do que?
Cactu: Toco viola, e vou
tocando sem rumo.
Peyote: E isso não é trabalho?
Cactu: Não. É uma diversão. E
você, trabalha?
Peyote: Não.
Cactu: E vive do que?
Peyote: Faço e vendo
artesanato.
Cactu: E isso não é trabalho?
Peyote: Não, é opção.
Cactu: E você, não toca nada?
Peyote: Toco. A sensibilidade
das pessoas.
Cactu: Ah! Você tem um sangue
poético.
Peyote: Não. Eu tenho um sangue
cheio de impurezas. E você, toca algo mais além de violão?
Cactu: Toco o coração das
moças.
Peyote: Deixa eu fumar. Você
que é o poeta. Toca música sua ou dos outros?
Cactu: Os dois. E além da
sensibilidade, você toca algum instrumento?
Peyote: Batuco um pandeiro.
Cactu: Então vamos nos dar
bem. Vamos fazer som e vender seus artesanatos.
Peyote: Vamos! Quer fumar mais?
Cactu: Não, pode matar.
A
fumaça dominou o raciocínio e um silêncio se criou e se seguiu.
Peyote: Tá pensando em quê?
Cactu: Se deus criou o homem.
Você acredita nisso?
Peyote: Não! O homem foi quem
criou deus! A ignorância do homem mitificou deus. O homem criou deus para
justificar desgraças, tragédias, fenômenos e causas inexplicáveis,
incompreensíveis. E com isso a fé pra servir de muleta, um apoio, para os
fracos, ignorantes, leigos e incapazes, insuficientes que não conseguem suprir
seus desejos e fica dependendo de deus, e não do seu próprio esforço, empenho.
E ainda culpam deus para justificar que o pior é porque deus quis.
Cactu: Mas então me explica a
criação do mundo. Não acha mesmo que teve um dedo de Deus?
Peyote: Já explicaram...
Evolução...
Cactu: Mas você não acha que todos
esses milhares de anos é muito pouco tempo para tanta evolução?
Peyote: Pouco tempo são os sete
dias, ou melhor, seis. No sétimo ele descansou. Pra quê deus criaria o homem?
Cactu: Ah, sei lá... tédio,
brincar... Ainda continuo achando
que foi deus que criou tudo. Acredito nisso, tenho fé nisso e preciso dessa fé
dessa crença para ter motivos para seguir em frente de bem, só com o bem.
Peyote: É, as pessoas precisam
mesmo de fé para não se perder. Mas então me explica: “Que palavra pronunciastes para dar ser à matéria com que havíeis de
formar aquelas palavras?”
Cactu: ?...?...?
Peyote: Olha só: os que têm fé
não crêem que primeiramente ele criou o céu e a terra?
Cactu: ...? ...
Peyote: Por meio de palavras
soantes e transitórias...
Cactu: ?...
Peyote: Pois então, antes do
céu e da terra é necessário que já existisse uma criatura para entoar as
vibrações daquela voz.
Cactu: ????????? ... São tudo
metáforas.
Peyote: Pois é, a costela, o
fruto proibido, são tudo metáforas. A fé é uma metáfora.
Cactu: Olhe o sol, as flores,
as aves... deus habita todos os seres, todos os lugares.
Peyote: Então o homem mata deus
indiretamente, propositalmente, prazerosamente, inconscientemente. deus é
autodestrutivo.
Cactu: O homem é que é
ignorante.
Peyote: Logo, deus, a sua
imagem e semelhança.
Cactu: deus criou o mundo, o
universo.
Peyote: Arrã, ah, criou também
o papai noel e o coelhinho da páscoa. O carnaval e a guerra. Extraterrestre
também é criação de deus? ele deu vida a outros seres em outros planetas além
aqui da terra? Como era a Eva extraterrestre? Ou foi outro deus que criou os extraterrestres?
Um deus extraterrestre? Deus é extraterrestre, não está na terra. Claro, não é
bobo.
Cactu: A fé motiva as pessoas
a bons atos, a ter esperança.
Peyote: A fé tapa os olhos e
oculta a realidade. Se uma coisa aconteceu foi porque uma serie de fatos e
consequências levaram a isso, e não aconteceu porque deus quis. Pra uma coisa
acontecer tem que haver intenção, esforço, vontade; e não deus querer. Se você
tem sonhos, faça você mesmo não espere por deus. Você faz o seu caminho, não
deus.
Cactu: Enche esse cachimbo aí
vai.
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