Depois de muito tempo consegui algum para matar a saudade de
uma pessoa muito querida, quanto tempo não o via, meu irmão; partiu logo após a
morte do nosso velho. Meio sem rumo, foi para esse lugar: uma comunidade
distante, num litoral, não sei nome. Não sei por que, mas ele tinha lido algo
em algum lugar sobre certa seita, parece que uma comunidade que lhe chamou a
atenção para um novo modo de vida.
Ele já me esperava desde as sete e meia da noite, agora eram
oito e meia, no ponto da rodovia que eu tinha de pedir para o motorista parar o
ônibus. Ele estava empolgado, animado e curioso para ir me apresentar o tal
lugar diferente, talvez também pela saudade, ambos estávamos ansiosos. Lugar
conhecido por alguns poucos, que se libertam dos apegos subsidiários para
experimentar outras perspectivas; sentia algo prometendo que dessa vez seria
diferente a experiência.
Após o saudoso abraço, uma longa contemplação entre um e
outro – o outro no um -, sem delongas entramos no carro e fomos. As novas iam
surgindo como as antigas ladeiras que íamos subindo e descendo, algum tempo
olvindo Villa Lobos, passamos dos limites da cidade. Havia uma bifurcação e
duas estradas: a da esquerda, estreita e esburacada, o carro mal passava. A da
direita, larga, espaçosa, lisinha. “Entrem pela porta estreita, pois larga é a
porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por
ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos
os que a encontram.” Ele indicou o caminho ao carro, guiando pelo volante, na
escolha fui junto. Fomos pelo sinistro caminho. Só nós dois, eu e meu velho
irmão. O rumo ele sabia bem, já o caminho, fomos tateando. Não me contou o
destino, mas seguimos como se o corpo fosse levado por osmose.
Chegamos à comunidade, o clima esotérico dominava o
ambiente, fomos bem vindos. Meu irmão já conhecia os xamãs dali, o orixá nos
recebeu de braços abertos e todos os santos nos trataram como familiares.
Tomamos uma pura água, nem gelada nem morna, como tem que ser: límpida e
insípida, apenas o suave sabor da vida. Sentamos em volta da fogueira, os
tambores começaram a repicar, lindas ninfetas selvagens, virgens, esculturais,
delicadas, sensuais, seminuas, nos serviram graciosamente um licor escuro e
amargo com raízes e ervas, o ritmo alucinado dos cachimbos nos envolvia cada
vez mais. O Xangô sentado numa espécie de trono tinha uma ninfeta em seu colo;
pele morena de um suave bronzeado, lábios úmidos, boquinha e nariz miúdos,
seios cheios, firmes como uma pêra, seus olhos castanhos combinavam com seus
cabelos ondulados, que batiam um pouco acima de sua grande anca, que emendava
num belo par de coxas grossas, a pele lisinha... Em uma das mãos tinha um sapo,
com a outra, ela acariciava, com o indicador, as costas do sapo e depois levava
o dedo à boca do pajé. Fiquei observando, o chefe percebeu e me chamou. Fui com
receio. Ele me ofereceu, na hora não sabia se era a ninfeta ou o sapo, por via
das dúvidas, com medo, receio de ser inconveniente, aceitei. A ninfeta pediu
para que eu me sentasse aos seus pés, ainda acariciando o sapo. Em seguida, ela
pôs o indicador nos meus lábios suavemente, comecei a lambê-lo, ela tirou,
passou novamente no sapo e depois voltou a pôr em minha boca. Chupava seu dedo
como se estivesse sugando sua alma, e sentia uma sensação inefável, inebriante.
Abri os olhos, os dela estavam fechados e sua língua passeava entre os seus
lábios úmidos de prazer. Dei uma leve mordida no seu dedo, ela despertou. O rei
tomou o sapo da sua mão e nos apontou uma cabana.
Levantamos, dançamos juntos uma dança afrodisíaca, na cabana
copulamos alucinadamente, com nossos corpos se guiando sem buscas, apenas indo
onde for. Juntos chegamos ao paraíso do prazer: euforia no nirvana e extasie ao
deslizar pelas plumas.
Saí da cabana para admirar o colírio: o mar, a lua e as
estrelas estavam excitantes. A garota me chamou de volta à barraca, não quis
voltar, preferi tragar ar puro. Todos continuavam a dançar em volta da grande
fogueira. Os movimentos dos corpos balançando... Parecia que iam voar ou se
transformar em algo para isso. Meus olhos piscaram lentamente, e, agora, eles
já eram seres de outra espécie. Flores! Borboletas! Flores e borboletas
dançando alucinadas. Dançavam com o fogo ardendo hipnotizando todos que o sentiam.
As estrelas rebolando freneticamente era tão cômico quanto a
lua girando desgovernada. Harmoniosamente bucólico.
De uma crise de risos entrei num desespero fulminante.
Esfregava os olhos e continuavam aquela dança, aquele fogo. Eu sou real, meu
pensamento não. Real e surreal fundindo a racionalidade irracional, a razão se
esvaindo como a fumaça do cachimbo. A ilusão firmando-se razão. Olhei em volta
e não encontrei meu irmão. Somente os seres dançando.
Sai correndo pela estrada, sem noção de onde iria. De
repente vi meu irmão com o carro atrás de mim, desviei o caminho para o meio do
mato na beira da estrada, continuei correndo desesperado, sem rumo, não queria
vê-lo, queria a solidão, a meditação. Depois de despistá-lo caminhei algumas
horas até chegar num vilarejo abandonado. A única coisa que se destacava entre
as pequenas casas da vila era a torre da catedral. Fui à direção da catedral, a
porta aberta, entrei. Caminhei pelo corredor escuro e frio, algumas janelas
quebradas, um vento gelado passava, alguns milagreiros me olhando desconfiados
do canto, outro de cima, dois lá na frente uma outra nos fundos, todos olhavam
com olhos arregalados, com uma interrogação estampada no olhar. Olhavam, mas
não se manifestavam. Só me olhavam, o que será que enxergavam? Olhar terno?
Olhar furioso! Um suor gelado me escorreu pela nuca.
Cheguei ao altar e me ajoelhei, fiz o sinal da cruz.
Implorei misericordiosamente por lucidez... Um sopro rouco soou no meu ouvido
pausadamente:
- Viu, você não quis experimentar, agora agüenta!
Senti um calafrio, fiquei em choque e sai correndo da
igreja, os abençoados me expulsavam com gritos e gargalhadas medonhas.
Sem fôlego, parei de correr e continuei andando por alguma
rua desconhecida do vilarejo. Um vento frio. Meti a mão no bolso e encontrei um
cigarro, acendi e continuei andando pela neblina. Meus passos estavam
flutuantes, mais largos, parecia que estava em degraus, mas estava em chão
reto. Avistei um muro de concreto com uma grade alta de ferro, fui seguindo o
muro para ver onde iria dar, na esquina do muro, no alto da pilastra, uma
gárgula me encarando mal humorada, em seguida, um grande portão de ferro e
outra pilastra com outra gárgula, essa, com um sorriso irônico. O portão estava
fechado, sem cadeado, porém fechado. Olhei para a gárgula que sorria, ela me
convidou para entrar. Na reta do portão um caminho iluminado pela lua, já
fatigada, seguia para um bosque de árvores nuas.
Um relâmpago, um vento frio, a neblina se abriu, e com ela o
portão.
Dei um passo curioso em direção à porta. Hesitei. Olhei
novamente para a gárgula, ela não me olhava mais, a outra também me ignorava.
Estava só. Soltei o cigarro e caminhei adentrando, seguindo o caminho que a lua
iluminava. Deserto.
Grandes crucifixos, túmulos sem flores, mensagens sem
sentido para as fotografias sem brilho. Fora o assobio do vento frio, era um
silêncio total. Um silêncio muito frio.
Caminhei entre os túmulos. Agora estava tranqüilo,
despreocupado, respirava fundo e sentia uma paz me entorpecendo, já não sentia
mais nada, o raciocínio falhava. Meu corpo virou para o outro corredor, vozes
trêmulas me chamavam... Quem?
Logo à frente uma sepultura, meu irmão estava deitado nela,
ao seu lado o pai nosso. Sua mão acenou para mim, os dois estavam felizes,
sorridentes. Deitei entre eles, me aconcheguei. Confortável, quentinho.
Fechamos os olhos.
E a
lucidez...
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