quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Comentário sobre "Uma autobiografia de Lucas Frizzo", de Botika

Alucinações de Lucas Frizzo, ou um eu lírico noiado


Um texto escandaloso. Daqueles que atormenta no cérebro de tão alto os estardalhaços. Tudo é exagerado, sempre. As letras transbordam do papel do livro, assim como a porra escorre da boca da puta – ou do ser com o qual o sagaz Lucas Frizzo copulou ou fornicou ou se meteu, seja ele humano, animal ou vegetal; o negócio é meter pra dentro. Parece uma narrativa turbinada a cocaína, em que a linguagem se escancara rasgando o corpo com o verbo e deixando explodir toda excreção purulenta da mente, jorrar a podridão do egoísmo e escorrer os pudores do ser humano.
Escatológico logo de cara, as expressões bizarras que seguem do início ao fim do texto são um teste ao estômago. O gosto pela ironia para jogar com os valores morais também fala alto, chegando ao cômico frequentemente. Como também dá um humor as colocações dos personagens midiáticos, compondo cenas inimagináveis, tragicômicas. Exibe a sociedade do espetáculo, a devora, rumina, vomita e consome tudo em seguida, às fungadas.   
A atração pelo espírito degradante e de autodestruição percorre todo o texto, parecendo buscar uma forma de “transgressão”, onde o autor mais explora sua forma de expressão com as palavras, criando imagens que extrapolam facilmente o limite da verossimilhança. Num tom misto de surreal com naturalismo, ou seria um surrealismo natural? Pois os abusos com o que decorre do corpo não está na esfera do real, mas sim do absurdo.
A narrativa ganha tom de alucinação, parecendo ir pelos espaços entre a lisergia das drogas, o sonho e o pesadelo. Embriaguês e delírio, entre uma coisa e outra, com tudo misturado e sobrando coisas, a overdose na linguagem está sempre ativa.   
A falta de pontuação e o mau uso da gramática não atrapalham a leitura, ao contrário, fazem com que o texto flua, numa rápida corrente, como aspirar uma carreira de cocaína, e a leitura vai em uma sentada só, com algumas gramas de pó para acompanhar então...
Por fim, parece mesmo é que Botika quer mais é que se foda - a sua narrativa e o seu leitor! Na consonância de seu narrador, trash, sem dúvida. Afinal, botica é da farmácia e a ficção é o antiácido, invenção do homem.
 

Das dependências

Depende ou não

Todo Homem busca a independência, sem perceber que isso é sandice, contra a lógica da Natureza. Todos dependemos uns dos outros e as coisas estão todas interrelacionadas numa forma de dependência. 
Dependemos das pessoas para compartilhar os momentos da existência. Com-partilha: dividir, confraternizar, celebrar. Estender-se ao próximo, saber ouvir, conseguir prosear.  
O filho depende do pai para orientá-lo, educá-lo. Da mãe para ter o aconchego do colo e sentir o amor que ambos sentem, numa esfera de pura magia criada pelos laços das dependências entre os afetos estabelecidos.
Um amigo depende do outro, para haver a amizade. Assim como um cálice solitário não faz brinde, uma taça sem mais uma não dá tim-tim. O cachorro sem o dono não abana o sorriso no rabo e o homem sem o melhor amigo não sabe o que é uma mordida de reconhecimento carismático.
O artista depende de seu público, da mesma forma que esse precisa do show para que brilhem os seus olhos. E o que seria do palhaço sem o riso? A dança depende da música, aí a gente dança, conforme a banda toca. O sexo pode rolar, mas vai depender se a conversa é boa. E se o papo está bom, desce mais uma! Depende, não tem que trabalhar amanhã? Pois a caipirinha se faz com cachaça, limão, açúcar e gelo, não podendo faltar nenhum dos ingredientes, mas para ficar redonda depende do talento nas dosagens de quem a prepara, e a ressaca vai depender da quantidade bebida. E pra ajudar, o cigarro depende do fogo para acender, e o viciado é dependente do seu cigarro, e cada junk com seu macaco!
Até mesmo uma panela depende da tampa para cozinhar, e o arroz depende do feijão para completar o prato feito, e o bife a cavalo não vai sem o ovo, e a comida fica boa, como a caipirinha, dependendo da mão que leva tempero, e que também depende, é claro, do gosto do freguês.
O sujeito depende do coração para viver, e pulsar sem animar é apenas instinto – esse sim independente – ou quase, porque vai muito da potência da percepção de cada um. O homem depende da mulher e ela dele para nascer outro ser, seja no acidente, que depende do imprevisto, seja na paixão, que depende do tesão e da disposição dos elementos envolvidos – aí a bela junta-se à fera. Já o amor, ih, aí depende de muita novela.
Somente o universo, que gira independente da vontade de ninguém, continua seu movimento. Mas isso ainda depende da fé de cada um, pois a ciência sem a experiência é teoria e a religião sem o fiel é apenas história. Deus sem o rebanho nem chegaria a existir, como o bem e o mal, quando a perspectiva é selvagem. Desaparece a alma quando a crença é corpórea, e a quantidade de dinheiro depende dá vontade de adquiri-lo e do valor que a ele se dá.
Percebe-se, então, que as inevitáveis relações de dependência estabelecem simultaneamente uma relação de completude. Mas ainda assim, vai depender da interpretação de cada um.
     

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Era uma vez...


tudo sempre era uma vez...
Um joelho... Para que serve um joelho? Para dobrar, ora bolas! Ele articula as funções entre o pensamento e o movimento. A cabeça pensa, envia a mensagem para o corpo andar, e tudo começa a se movimentar. Anda, pula, dança, corre e salta. O joelho embala o ritmo do vai e vem dos quadris na hora do sexo. Firma a perna na posição e vai, movie. Sem as movimentações do joelho, as possibilidades de invenções de posições parecem se reduzir, mas dá-se um jeito, e tudo flui naturalmente bem.   Um joelho que não dobra mais a perna deixa coxo o sujeito. Aí ele anda todo estranho, torto.  Se regenerar a pele, os músculos e os nervos devem também sarar. Aí as atividades voltam a circular, como é? A interrogação permanece em seu bailar.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A vaca

A vaca
Tinha uma vaca no meio do caminho. No meio do caminho havia uma vaca.
Maldita vaca!
A gente ia indo na motoca, numa boa, devagarinho, certinho, careta... Vimu a vaca vindu na contramão. Ela indo na dela, nóis na nossa. Beleza, dá uma diminuidinha só pra garanti. E num é que a marvada resolve dá uma galopada e atravessar a rua!? Chamei no freio, na estrada de terra, meio asfaltada ruim, derrapou. Num deu nem tempo de nada. Só vi a vaca atropelando a gente. O companheiro da garupa disse que viu, já caindo, a vaca passando, voando por cima de nóis (parece até viagem lisérgica!).
 Mardita vaca!
Saiu correndo de volta pro pasto, de onde não deveria de ter saído. Nóis? Largado no chão – “que tudo retém”. A vaca louca podia ter pisado nas minhas costelas, que seria do meu pulmão? A vaca destrambelhada poderia ter tombado, caído por cima da gente, e esmagaria essa cabecinha que agora pensa dentro do capacete, que seria de minhas ideias? Muuuiita sorte! De novo! Cada acidentes por essa vida! E as cagadas vão acontecendo junto. Daí percebo que, realmente, “o homem deve viver, e não apenas existir”. E assim como a merda aduba a planta, as cagadas também nos fazem crescer, amadurecer e pensar, para continuar na existência, com pulmão e ideias funcionando.
Dita vaca!
Epiderme, derme, hipoderme, carne, osso, pueira, terra, asfalto. Apenas um joelho fudido de mais grave, e o mindinho do pé direito latejando de asfalto. Insônia de dor na perna. Mas a pele se regenera, a ferida passa, sara... Com o tempo, assim como a vaca, filha da puta, que passou. Num instante. É assim a vida: vivências de instantes.   

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Estar na sala

in negative

Pra rua

Abandono

bolinha sem cachorro

Closengradados

mexendo em-buceta-do-homem

cabeçaclitorischave

Re-mexendo Embucetado

A boca

Cabeça balão

óleo sobre tela, 50 x 60.
take ideas

De um recado

Eu gostei das imagens. São fortes, e por algum motivo me parecem ser do mesmo autor dos contos. Ambos coloridos. Do André, decerto.
 
Bacana percepção, caro amigo, nem eu pensei nisso...