quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ser Feliz

Onde está a felicidade?

Felicidade? Uma invenção da modernidade. 
Antes, as pessoas não nasciam para SER FELIZ. As pessoas nascem porque nascem. 
Agora, as pessoas são obrigadas a SER FELIZ.
Essa tal de felicidade...
Where is this mother fucker?
Num projeto realizado, improvisado e desencaminhado: criado-criativo, imagético e inventivo...
Ou num momento mais simples: a brisa no rosto...
Em um mom
ento compartilhado: um brinde!
Na felicidade do outro: o sorriso da criança...
Na adrenalina de uma seizada com o zapi na mão!
Naquele beijo na boca apaixonado...
No primeiro gole daquela cerveja gelada...
Várias formas de sentir essa sensação... feliz... o lance é saborear o momento... e... SER FELIZ

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Interagindo Dante e Zaratustra


Zaratustra: Desde que há homens, o homem tem-se recreado muito pouco: é esse, meus irmãos, o único pecado original.
Dante: tuas palavras acenderam em mim grande desejo de enfrentar a jornada; já não meço esforços para o objetivo que propuseste. Assim sendo apertemos o nosso passo.
Zaratustra: o pior de tudo são os pensamentos mesquinhos.
Dante: somos torturados com o castigo de ter nossos desejos para sempre frustrados.
Zaratustra: os remorsos levam a morder.
Dante: não há tormento mais dorido que relembrar os tempos felizes na desgraça.
Zaratustra: Instrumento do seu corpo é também a sua razão pequena, a que você denomina espírito: um instrumentozinho e um brinquedozinho da sua grande razão. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O espírito livre de Raul Seixas



Ser a metamorfose ambulante. Assim Raul Seixas conseguia libertar o seu espírito. Buscando diferentes perspectivas para ver a vida para não ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Não, eu vou desdizer o que eu disse antes: não ter a velha opinião formada sobre tudo liberta o espírito de Raul. Já foi católico, budista, protestante, pantera, hippie e tinha o símbolo da paz dependurado no pescoço, consultou e acreditou, depois, outra alternativa experimentou.
Confusões na mente o levam a tentar outra vez, superando em cada momento o descompasso da harmonia. Criando aquilo que o satisfazia faz a sua obra, compõe a sua vida na melodia. Dando sentidos contrários aos signos, com potência fabula o novo. Com valores des-louc-ados, o ouro fica para os tolos e o trabalho às formigas, pois essas não sabem cantar.
Com o grande estilo, acreditando naquilo que finge ser que é e se é, forma a grandeza do artista, desdenhando os belos sentimentos ama os momentos com paixão ao próximo sol que está nascendo fora das bancas de jornais, no grito de sua lucidez, e fortifica o caos dando forma à força em seu exílio astronáutico. Bailarilando seu conhecimento sobre as filosofias da vida pega o trem, tem a visão, poetar sem razão e cantar com emoção. Dá sinal de que a ordem do maluco beleza é o grau de abstração da realidade convencional: do sistema é a mosca na sopa, a sua sociedade é a alternativa.
Na medonha paranóia daquilo que não se vê, canta a canção cheia de gargalhadas, pois o fim de mês já está aí, e uma nova cachaça para empolgar os ânimos da criatividade com as asas de dez mil anos atrás: na confusão da tempestade brotam ventos assobiando e batucando o novo ritmo para degustar a maçã.
Os caminhos da vida trilhou com abissal delírio para o acorde dissonante, e no risco do sucesso riscou o seu nome no rock’n roll: Raul Seixas.           

terça-feira, 9 de outubro de 2012

cut-up Deleuze, A ILHA DESERTA


“muitas pessoas estão parando de pensar em termos de Eu: Deus ou o homem, a substância infinita ou o sujeito finito. a morte de Deus, a possibilidade da sua substituição pelo Homem, todas essas permutações Deus- Homem, Homem-Deus, tudo isso se equivale. Não se é mais homem do que Deus, e um morre com o outro”.

“É por força da admiração que se reencontra a verdadeira crítica. Hoje, a doença das pessoas é que elas não sabem mais admirar; ou, então, são ‘contra’, aferem tudo por seus parâmetros, e tagarelam, e escrutam.”

Micro-conto: "Blue Butterfly


- A população gay aumenta a cada dia no mundo.
- Mas como, se eles (ou elas) não se reproduzem?!
- Ora bolas, eles são naturais, da natureza, saem do casulo, como as borboletas, se transformam... E se proliferam...

Caos, Terrorismo Poético e Outros Crimes Exemplares, por Hakim Bey



Tudo na natureza, inclusive a consciência, é perfeitamente real: não há absolutamente nada com o que se preocupar. As correntes da Lei não foram apenas quebradas, elas nunca existiram. Demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer.

Não. Ouça, foi isso que aconteceu: eles mentiram, venderam-lhe ideias de bem e mal, infundiram-lhe a desconfiança de seu próprio corpo e a vergonha pela sua condição de profeta do caos, inventaram palavras de nojo para seu amor molecular, hipnotizaram-no com a falta de atenção, entediaram-no com a civilização e todas as suas emoções mesquinhas.

Não há transformação, revolução, luta, caminho. Você já é o monarca de sua própria pele – sua liberdade inviolável espera ser completa apenas pelo amor de outros monarcas: uma política se sonha, urgente como o azul do céu.

Terrorismo Poético
Dançar de forma bizarra durante a noite inteira nos caixas eletrônicos dos bancos.
Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas.

Sequestre alguém e o faça feliz.

Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme, inútil e impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilômetros quadrados na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma coleção de manuscritos de alquimia.

Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles não satisfazerem a sua necessidade de indolência e beleza espiritual.

Terrorismo Poético também pode ser criado para lugares públicos: poemas
rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de para-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrunds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso (fraude postal), transmissões de rádio piratas.Cimento fresco...

Se não mudar a vida de alguém (alémda do artista), ele falhou.

Uma primorosa sedução praticada não apenas em busca da satisfação mútua, mas também como um ato consciente de uma vida deliberadamente bela – talvez isso seja o Terrorismo Poético em seu alto grau.
Os Terroristas-Poéticos comportam-se como um trapaceiro totalmente
confiante cujo objetivo não é dinheiro, mas transformação.
Não faça Terrorismo Poético para outros artistas, faça-o para aquelas pessoas que não perceberão (pelo menos não imediatamente) que aquilo que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite politicagem, não argumente, não seja sentimental.
Seja brutal, assuma riscos, vandalize apenas o que deve ser destruído, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vida – mas não seja espontâneo a menos que a musa do Terrorismo Poético tenha se apossado de você.
Vista-se de forma intencional. Deixe um nome falso. Torne-se uma lenda. O melhor
Terrorismo Poético é contra a lei, mas não seja pego. Arte como crime; crime como arte.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Agamben, O Homem sem conteúdo


“O que quer dizer, então, que a arte foi além de si mesma? Significa verdadeiramente que a arte se tornou para nós um passado? Que ela desceu nas trevas de um definitivo crepúsculo? Ou quer dizer, na verdade, que ela, cumprindo o círculo do seu destino metafísico, penetrou novamente na aurora de uma origem na qual não apenas o seu destino, mas o próprio homem poderia ser posto em questão de modo inicial?”

Félix Guattari, CAOSMOSE, "Heterogênese"


Na poesia, a subjetividade criadora, para se destacar, se autonomizar, se finalizar, apossar-se-á:
1)      Do lado sonoro da palavra, de seu aspecto musical;
2)    De suas significações materiais com suas nuanças e variantes;
3)    De seus aspectos de ligação verbal;
4)    De seus aspectos entonativos emocionais e volitivos;
5)    Do sentimento da atividade verbal do engendramento ativo de um som significante que comporta elementos motores de articulação, de gesto, de mímica, sentimento de um movimento no qual são arrastados o organismo inteiro, a atividade e a alma da palavra em sua unidade concreta.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Cindy, conto de COLORIDO


O Príncipe ia dar uma festa, Cindy era louca por ele. Queria por que queria, daria tudo por uma noite com o Príncipe. Mas sabia que seria impossível devido à incompatibilidade dos sexos, porque Cindy não era Cindy, era, na verdade Xandão. Cindy era o nome que fantasiava a mente de Xandão. Xandão era traveco.  
Onze horas da noite. O salão de festas da mansão do Príncipe deve estar enchendo a estas horas. “E agora? O que faço?” Se perguntava Xandão em prantos, nu à frente do espelho em seu quarto. Quinze pra meia noite, Xandão na deprê encolhido em cima da sua cama. “Eu mereço! Sei que mereço mais do que qualquer uma passar esta noite com o príncipe.” Xandão viu a lua brilhando pela janela, o céu estrelado; foi à janela e do fundo do seu coração suplicou: “Se a senhora existe, por favor, me socorra!”
O brilho hipnotizante das estrelas invadiu o quarto de Xandão e dele surgiu a Bruxa Madrinha. Linda feiticeira, lingerie branca contrastando com sua pele negra, um batom sangrento de tão rubro que era, explodiu gigante e escultural, rebolando um funk no meio do quarto, flutuante à frente de Xandão.
“Sua voz foi ouvida e seu desejo se realizará. Qual o seu desejo?”
“Quero virar Cinderela. Quero ser a mulher mais bela está noite, para o Príncipe conquistar.” 
“Seu desejo se realizará, mas se manterá por apenas doze horas. Preste atenção, o relógio já vai bater meia noite, você terá até meio dia, aí então o feitiço se acaba e você torna a ser essa coisa pobre-fedida-cheia-de-pelos.” - “Ai que nojo, Madrinha!” - “Bom pra você, minha querida?”
“Sim! Lógico! Será um sonho!”
Em meio a fogos de artifícios Xandão se transforma em Cindy, a mais bela.
“Agora vá, minha filha! Carpe Diem! E seja feliz.”
Pum, a bruxa madrinha desapareceu e Cindy foi correndo para a festa.
Cindy estava esplendorosa, se destacando entre todas no salão. Com uma taça de champanhe parou ao pé da escada. Mal o Príncipe saiu de seus aposentos, já meio grogue e entorpecido, e já avistou a linda dama. Desceu e foi direto a ela. Sem nenhuma palavra valsaram. Mudos subiram para os aposentos. Lá, gritos despedaçantes, gemidos e sussurros de prazer toda a madrugada. Alvorada chegou com o orgasmo matinal. Cindy até então ainda era virgem, há algumas onze horas e meia, agora decidiu se entregar por inteiro e o Príncipe insaciável, tarado, não perdoou o cu da bela Cinderela. Enquanto estava sendo alvejada lancinantemente por trás, viu no relógio da parede os últimos dois minutos de fantasia. Tudo ia se acabar e o príncipe ainda ia demorar a gozar. Imaginou o que aconteceria ao príncipe se de repente se encontrasse metendo num cu peludo e não mais naquela bundinha lisa e cheirosa. Achou melhor interromper e desaparecer. Num surto, Cindy se desprendeu do Príncipe e saiu correndo do quarto corredor a fora. O Príncipe ficou desentendido. Xandão foi voltando à realidade. Com o saco e o pau na mão, saiu do castelo até ganhar a rua. Chegou em casa nu.
O Príncipe não entendeu nada. Ficou desiludido, desanimado vagando pelos corredores mórbidos, voltava para o quarto, se lembrava de toda lambança que fizera a pouco com a linda ninfa. De ímpeto resolveu que a encontraria novamente. Mas como? Nem o nome dela ele sabia. A única lembrança dela que tinha clara em mente era seu lindo e belo e cheiroso e saboroso e rosado cu. Decidiu então começar procurando por ai.
O Príncipe foi com sua pesada escolta batendo de casa em casa para encontrar o cu da linda Cinderela. Chegava, invadia e mandava que todos arriassem as calças para o Príncipe. Com certeza ele reconheceria, e se excitado ficasse, não haveria dúvida, seria ela.
Depois de muitas frustrantes tentativas, tantas bundas sujas e fedidas, já desanimado, quase desistindo, foi ao último moquifo do beco sujo. Dessa vez não chegou invadindo, bateu à porta. Não atenderam. Foi entrando silenciosa e vagarosamente no moquifo. E lá estava, Xandão de ressaca, de bruços. O cu de Xandão brilhava pra lua. Antes que o príncipe reconhecesse, seu pau o entregou enrijecido. Encostou a porta e foi terminar o inacabado. Xandão acordou com a graciosa pica do príncipe, quente e dura, entrando em seu corpo. Sem querer entender, apenas gozando, deixou que o iluminado lambuzasse toda a sua bunda.  
Na noite seguinte, na mais grandiosa festa, no principal salão real, bailavam Xandão e o Príncipe, às vésperas das núpcias.

Feto cósmico - retocado

acrílica sobre tela 60x80

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Meu Pai - like a child


Mensageiro natural

da janela lateral, do quarto de dormir, vejo um sinal...

Sonhos de zé




            O sonho de zé, sabe qual é?
            Sonho de zé é chegar na porta da faculdade e convidar as gatinhas das “comunicações” (rádio TV, relações públicas, publicidade, jornalismo). “Ai! Nossa, como minha agenda é lotada! Ai! Tanta correria!”  pra (foder) “tomar” alguma coisa.

***

            - E ai, minas. (vamo foder pra caralho hoje!) O que vocês acham da gente tomar uns chopps?
            - Ai, zé, naquele boteco engordurado da esquina eu não vou não.
- Que isso, a gente pega o carro e sai pra procurar um lugar legal. (agora fodo essas vadias).
            (nossa olha o zé, carrinho e tal. Quem sabe hoje até rola alguma coisa...)
            Oh, lá vai o zé arrastando três bocetinhas ambulantes.
            (nem que seja só uma chupeta)
            - Som maneiro, hein zé
            - É! É!

Tu ts ta ts tu ts ta ts tu ts ta ts tu ts ta ts tu ts ta ta ta ta tu ts ta ts tu ts ta tata ta ta  puts puts puts pupuputs puts puts  pupuputs puts puts...

- E ai, vamo toma aqui memo?
- Oi?
- Vamo toma aqui memo, (caralho)?
- Hein?
- (vai toma no cu, porra.) Vamo bebê aqui memo?
- Eu não tô te ouvindo, zé!
- Vamo bebê aqui memo?
- Ai, com som nas alturas não dava pra ouvir nada. Hum, você quer tomar aqui? Aqui é caro...
- Que nada! Pega nada não, mina. Hoje vai no cartão. Vamo aí!
- ... Nossa zé, você ficou meio bêbado heim.
- Também só bebeu uísque.
- Todo mundo só bebeu uísque hoje, querida.
- Rá, rá, rá!
- Então muierada, vamo todo mundo lá pra casa hoje.
- Ai, eu não posso. Tenho salão amanhã cedo.
- Ih...
- Eu também não. Academia todo dia de manhã. Ela vai.
- Ih... Ô mina, você também vai me deixar na mão?
- Não zé, vamo lá.
- É, e a gente vai fazer um amorzinho gostoso?
- Vamo zé, vamo lógico! Você acha que eu vou lá pra quê?
- Auuuuuuu!
 

***

- Hei, acorda zé! Vai lá apertar o botão da máquina, zé. Vai girar a manivela, zé! Porra, zé! Tá dormindo no trampo de novo, zé?! Assim não dá, zé! Vamo trabaia, vamo!
- Ué? Ué? Cadê minhas muié?
E, zé mané!


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Procuro - COLORIDO




Procuro doméstica
pra duas vezes por semana.
Faxina, lavar, passar etc.
ap. pequeno, homem solteiro.
Tel. 231 1694, Rua Tequero. Ap. 33
Vila só isso - FD

Imagina que eu vou pagar $10 pra uma puta chupar meu pau. Tem viado aí que paga $20 pra chupar essa rola aqui. Assim pelo menos ela vem até aqui, eu não gasto gasolina, faz uma faxina, eu pago, ganho uma chupeta de brinde, uma fodinha rápida, e o melhor: ela não é puta.

Carol
Alto nível, inteligente, carinhosa, loira,
lindíssima, olhos verdes, 1.87, corpo escultural,
seios fartos e firmes, rostinho de boneca,
cintura fina, pernas grossas, sem frescura.

            - Já tem experiência com faxina, Carol?
            - Sim.
            - Também não é preciso, não é. O que não souber aprende, é fácil. A casa é pequena, não tem muito trabalho. O importante é manter tudo limpo e organizado, só.

            - Seu Maurício, já terminei as louças, o senhor vai querer a chupeta agora ou depois?
            - Daqui a pouco, meu amor. Primeiro faz um cafezinho.
            - Sim senhor.
            - Pronto, Sr. Maurício. Nossa senhora, seu Maurício, mas que animação toda é essa?
Ai, seu Maurício, calma que isso dá processo. Ai, seu Maurício... Que pinguelão, seu Maurício!
            Chup! Chup! Chup!
            - Vem cá meu docinho. Senta aqui no colo do titio. Isso. Deixa eu dá uma piruzada nessa bundinha mais gostosa.
            - O Senhor quer que eu tire a calcinha, seu Maurício? Não... É? Deixa de lado? Assim? Ai, puta!? Ai, seu Maurício, fala assim eu fico até emocionada. Ai, bate! Bate! Na bunda, bate! Bate!
            - Uau, seu Mauricio.
            Pof! Pof! Pof! Atolando no rabo da vadia.
- Agora vira, vem cá, chupa! Aí, aí! - Três jatos melados na cara dela. - Lambe. Engole tudinho. Isso, linda.   

            - O senhor escroto, comedor de puta, fode viado, porco de estomago e tarado de sexo, aceita a senhora puta gostosa, inocente vadia sem oportunidades desperdiçadas, no sofá e na cozinha, na cama e no chuveiro, de chapinha ou sem, estrias sim gordura não, se mais rico não, se pobre sim, se o senhor doente, sim, ela não, o senhor morto ela continua dando, sim?
            - Aceito.
            - E a senhora puta não tem o que querer aceitar. Simplesmente aceita calada. No máximo um gemido falso.
            - Hum, hum.

            - Vai, mexe essa bunda gorda, traz minha cerveja e vai fazer um bife com cebola pro seu macho, porra! 
            - Ué, seu Maurício, o senhor não ia querer a chupeta agora?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Paraíso, COLORIDO




Carta de Bill Clarity.
Porto Seguro - Bahia - Brasil, Fevereiro de 2004.
Senhor:
Visto que trabalhei na sua assessoria por três árduos anos, sem folgas, sem nenhuma férias, fiquei realmente agradecido pelas férias que o Senhor insistiu em patrocinar e grato por ter arranjado tudo e escolhido o meu roteiro.
Resolvi escrever para lhe contar como foi a viagem e como vão as coisas por aqui.
O embarque no navio em Miami foi rápido. Um solzinho agradável, mas fui para o meu quarto dormir. Estava muito cansado, apaguei, dormi por muito tempo, nem sei quantas horas. Quando acordei estávamos parando no Caribe para outros turistas com o mesmo destino embarcarem. Fui andar pelo navio. Fui ao restaurante almocei uns frutos do mar que não me lembro o nome, estava horrível. Em seguida peguei um jornal, e cá para nós, sua imagem não anda muito boa mundo a fora. Fui para a proa, um garçom passeando com uma bandeja com taças de champanhe me ofereceu uma, peguei duas, uma para mim, e outra para uma moça linda que estava encostada na grade com olhar perdido. Ela era cubana, e assim que disse meu nome ela pegou o champanha e saiu andando sem me dizer o dela. Acendi um cigarro e um rapaz, também americano, veio me pedir um. Dei, ele pediu o isqueiro, acendi e ele começou a falar da vida dele, que estava se divorciando e então resolveu fazer o cruzeiro para arejar a mente. Seguimos a viagem ali na proa tomando champanhe, ele ficou falando do seu casamento, os problemas que levaram ao divorcio, e logo percebi que ele era um corno, idiota, avarento. De repente ele silenciou e pensou que ela poderia estar com outro e hesitou em pular, mas aí o capitão anunciou que logo estaríamos chegando ao destino. Brasil. Ele desistiu de pular.
Avistamos terra. Respirei fundo e um ar inebriante encheu meus pulmões. Conforme fomos chegando, percebemos que na praia havia muita gente. Quando desembarcamos ouvi uma música com uma melodia animada, olhei para a praia e todos dançavam alegremente. Um guia disse que estávamos chegando em Porto Seguro, que a parada duraria duas horas e depois partiríamos para uma ilha, também no território brasileiro. O rapaz que conheci na proa desapareceu no tumulto para sair do navio.
Desci do navio e fui andar pela praia. Fiquei desgovernado, sem saber para que lado olhar. As mulheres daqui se vestem muito bem, um pouco menos e ficam completamente nuas. Mas também, com esse calor, é bem propicia a nudez. São de tamanha lascívia os trajes que elas usam. Um micro biquíni deixando as nádegas todas de fora, e que belas nádegas têm todas essas mulheres, todas muita animadas, com um rebolado inefável. Acho que é essa música que é tão envolvente, todos no mesmo ritmo, fazendo coreografias, chega a ser cômico.
    Encostei no balcão de um quiosque e me flagrei batucando no balcão, aquela música já me conquistara. Apesar de falarmos línguas diferentes, nos comunicamos muito bem eu e os nativos. Nem havia pedido nada para o homem do bar e ele já me deu um suco de limão, muito forte inclusive esse suco, mas era uma delicia, não conseguia parar de molhar a boca com ele. Não sabia o preço, mas achei que cinco dólares deveriam pagar, e assim que dei a nota ao dono do bar ele me deu várias fichas que valia o suco de limão que eu bebia, adorei. Na ficha estava escrita a palavra “caipirinha”, a primeira palavra que aprendi em português.
Entrei no clima da festa rapidamente, não tinha como fugir, era contagiante. Uma negra veio dançando em minha direção, que suingue, que rebolado. Veio me olhando sedutora, girava em torno de si mesma rebolando, que pernas, ela mexia aquela bunda como ninguém, nunca vi coisa igual, fiquei excitado e com vontade de ir apertar as nádegas dela, mas fiquei com receio de desrespeitá-la, com medo de ser preso, não sei, mas fiquei na minha. Ela olhava e sorria, fui tentar dançar com ela, e ela dava vastas gargalhadas. De certo que eu não levava jeito para a coisa.
Sem palavras ofereci a ela uma caipirinha, ela aceitou e ficou dançando ao meu lado. A música estava muito alta e ela ficava gritando no meu ouvido: “Carnaval! Carnaval! Samba! Samba!” E rebolava e me seduzia. Depois de três copos do suco de limão, e muito pula-pula, comecei a sentir muito calor e quando estava pensando em tirar minha camisa, a negra a rasgou e jogou no chão. Para mim foi um grande favor. Fiquei só de bermuda e me senti muito melhor. Quando dispencei os sapatos, fiquei muito mais aliviado. As fichas do suco de limão tinham acabado então fiz um sinal com a mão para o cara do bar levantando dois dedos e gritei: “Caipirinha! Caipirinha!” Ele sorriu e me trouxe dois copos do suco de limão. Um para mim outro para a negra. Fiquei curioso para saber o nome dela, e quando perguntei, ela não entendeu. Pegou-me pela mão e fomos em direção à avenida. Lá havia um caminhão com uma banda em cima e em volta do caminhão uma multidão pulando. Estava de mãos dadas com a negra e disse a ela repetidamente:
- My name is Bill. What is your?
Repeti várias vezes até que ela me ouviu e disse:
- Meu nome é Eva.
Eva... Tão simples tão charmosa. Linda! Cabelos trançados, olhos grandes e negros como sua pele. Seios fartos e firmes, barriguinha lisa, mas nem vou me atrever a descrever aquela cinturinha, aquele quadril, aquelas pernas grandes e grossas, bem torneadas, as nádegas fortes. E assim como Eva, outras milhares, todas aliciadoras, farreando pelas ruas.
Olhei no relógio, eram quatro e meia da tarde de uma segunda-feira. O povo aqui não trabalha? Pensei. Lembrei-me do navio, a essas horas ele já devia estar partindo para ilha. Não fiz questão de ir, nem me preocupei. Depois eu dou um jeitinho. Já estava me familiarizando com os brasileiros e já estava dominado pelo clima de festa.
Eva ia me puxando pela mão e pulando pela avenida. Ela pegou um pequeno tubo da mão de uma garota e ficou espirrando na minha boca, eu ia respirando e ficando meio tonto, um tilintar de pirlimpimpim e tiriririri muito simplesmente engraçado. De repente senti uma deliciosa sensação, parecia que estava levitando. Parei, fechei os olhos e deixei aquela deliciosa sensação tomar conta de mim. Minha mente foi-se em devaneios entorpecidos, o raciocínio se perdeu e senti Eva me abraçando, e quando abri os olhos ela me envolveu num beijo embriagante.
A noite caiu. Céu maravilhosamente estrelado. A gandaia não cessava nunca, já estava começando a me sentir exausto, aquele suco de limão deixou minha cabeça pesada. Disse a Eva que precisa de um hotel, ela entendeu rápido, e achamos um “Hotel Plaza”, que existe em qualquer lugar do mundo. Eva me acompanhou. Entramos no apartamento, primeiro fizemos amor, no chão mesmo, depois tomamos banho, nos deitamos. Não conseguia sair de cima da Eva. Ela se levantava para ir até a cozinha pegar uma cerveja, que, diga-se de passagem, é bem mais saborosa que a daí, desce estupidamente redondo, quando ela abria a geladeira eu já estava grudado nela apertando suas nádegas, ela sorria seu riso sedutor e abria as pernas. Em cima da pia, na mesa, na estante, na banheira, na cama, na parede... Indescritível atração.
Paramos para fumar um cigarro, liguei a tv, passava um noticiário e, apesar de não entender uma só palavra, pelas imagens somente violência, corrupção, medo, miséria, guerra, fome, desemprego, e apesar de tudo isso, para finalizar o noticiário e amenizar as tenções falaram de futebol e mostrava todo mundo sambando.
No dia seguinte, de manhã, estava sentindo uma dor de cabeça, Eva me convenceu a ir à praia. Ela me trouxe um coco cheio de água gelada, doce, muito saboroso, em seguida entramos no mar, água límpida, agradável, e quando saímos já não sentia mais a dor de cabeça. Olhei para o horizonte, para a paisagem em volta, para as mulheres ali perto. Paradisíaco! Eva chegou com uma caipirinha, me deu um beijo, fomos para uma roda de samba. É de enlouquecer ver aquelas mulheres sambando, e sem que você queira, sem perceber, sem saber, você já esta sambando. Desajeitado, mas sambando. Depois de mais algumas caipirinhas surgiu de novo um caminhão na avenida com uma banda e a multidão pulando em volta. Em plena terça-feira, o povo aqui não trabalha? Pensei novamente. Eva me trouxe um cigarro, ela apontava para o cigarro e para o chão, para o cigarro e para o chão, acho que ela queria dizer que era típico dali. Fiquei fumando e tomando a caipirinha, sentei embaixo de um coqueiro e me deu uma enorme preguiça de fazer qualquer coisa. Encorajei-me e fui até o bar pedir outra caipirinha, fiquei curioso e pedi para que o rapaz me ensinasse a preparar. Ele me revelou o segredo do drink. Quando houver oportunidade, preparo uma. Voltei para encontrar Eva, ela nos levou para um canto mais tranqüilo da praia, havia uma rede, nos deitamos abraçados e a primeira coisa que se passou pela minha cabeça é que daqui não saio mais, pelo menos enquanto durar o carnaval.
 Aqui é um paraíso, tudo muito sossegado, sem estresse, muita mulher bonita, muito sol, o mar lindo para refrescar e a caipirinha... isso o senhor deveria experimentar! Muita alegria, apesar das desgraças. Um povo meio despreocupado, muito feliz, acolhedor e simpático.
Uma semana se passou, e descobri que aqui é carnaval o ano inteiro, todo dia é dia de festa. Isso que faz o Brasil ser o que é.
Então, conheci D2, que me apresentou a maldição do samba e me ensinou a rimar, aí, “Subi no morro e bebi cachaça, fumei maconha e obtive a graça. Depois do samba minha vida nunca mais foi a mesma.” Escrevi para lhe informar que encontrei o meu lugar e que não volto mais. Adoraria convidá-lo para passar as férias aqui, mas descobri que devido a sua alienação e ganância, o senhor não é bem vindo. É uma pena.
Bye bye, see you!
Atenciosamente, Bill Clancy.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"Lucidez", COLORIDO




Depois de muito tempo consegui algum para matar a saudade de uma pessoa muito querida, quanto tempo não o via, meu irmão; partiu logo após a morte do nosso velho. Meio sem rumo, foi para esse lugar: uma comunidade distante, num litoral, não sei nome. Não sei por que, mas ele tinha lido algo em algum lugar sobre certa seita, parece que uma comunidade que lhe chamou a atenção para um novo modo de vida.
Ele já me esperava desde as sete e meia da noite, agora eram oito e meia, no ponto da rodovia que eu tinha de pedir para o motorista parar o ônibus. Ele estava empolgado, animado e curioso para ir me apresentar o tal lugar diferente, talvez também pela saudade, ambos estávamos ansiosos. Lugar conhecido por alguns poucos, que se libertam dos apegos subsidiários para experimentar outras perspectivas; sentia algo prometendo que dessa vez seria diferente a experiência.
Após o saudoso abraço, uma longa contemplação entre um e outro – o outro no um -, sem delongas entramos no carro e fomos. As novas iam surgindo como as antigas ladeiras que íamos subindo e descendo, algum tempo olvindo Villa Lobos, passamos dos limites da cidade. Havia uma bifurcação e duas estradas: a da esquerda, estreita e esburacada, o carro mal passava. A da direita, larga, espaçosa, lisinha. “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram.” Ele indicou o caminho ao carro, guiando pelo volante, na escolha fui junto. Fomos pelo sinistro caminho. Só nós dois, eu e meu velho irmão. O rumo ele sabia bem, já o caminho, fomos tateando. Não me contou o destino, mas seguimos como se o corpo fosse levado por osmose.
Chegamos à comunidade, o clima esotérico dominava o ambiente, fomos bem vindos. Meu irmão já conhecia os xamãs dali, o orixá nos recebeu de braços abertos e todos os santos nos trataram como familiares. Tomamos uma pura água, nem gelada nem morna, como tem que ser: límpida e insípida, apenas o suave sabor da vida. Sentamos em volta da fogueira, os tambores começaram a repicar, lindas ninfetas selvagens, virgens, esculturais, delicadas, sensuais, seminuas, nos serviram graciosamente um licor escuro e amargo com raízes e ervas, o ritmo alucinado dos cachimbos nos envolvia cada vez mais. O Xangô sentado numa espécie de trono tinha uma ninfeta em seu colo; pele morena de um suave bronzeado, lábios úmidos, boquinha e nariz miúdos, seios cheios, firmes como uma pêra, seus olhos castanhos combinavam com seus cabelos ondulados, que batiam um pouco acima de sua grande anca, que emendava num belo par de coxas grossas, a pele lisinha... Em uma das mãos tinha um sapo, com a outra, ela acariciava, com o indicador, as costas do sapo e depois levava o dedo à boca do pajé. Fiquei observando, o chefe percebeu e me chamou. Fui com receio. Ele me ofereceu, na hora não sabia se era a ninfeta ou o sapo, por via das dúvidas, com medo, receio de ser inconveniente, aceitei. A ninfeta pediu para que eu me sentasse aos seus pés, ainda acariciando o sapo. Em seguida, ela pôs o indicador nos meus lábios suavemente, comecei a lambê-lo, ela tirou, passou novamente no sapo e depois voltou a pôr em minha boca. Chupava seu dedo como se estivesse sugando sua alma, e sentia uma sensação inefável, inebriante. Abri os olhos, os dela estavam fechados e sua língua passeava entre os seus lábios úmidos de prazer. Dei uma leve mordida no seu dedo, ela despertou. O rei tomou o sapo da sua mão e nos apontou uma cabana.        
Levantamos, dançamos juntos uma dança afrodisíaca, na cabana copulamos alucinadamente, com nossos corpos se guiando sem buscas, apenas indo onde for. Juntos chegamos ao paraíso do prazer: euforia no nirvana e extasie ao deslizar pelas plumas.  
Saí da cabana para admirar o colírio: o mar, a lua e as estrelas estavam excitantes. A garota me chamou de volta à barraca, não quis voltar, preferi tragar ar puro. Todos continuavam a dançar em volta da grande fogueira. Os movimentos dos corpos balançando... Parecia que iam voar ou se transformar em algo para isso. Meus olhos piscaram lentamente, e, agora, eles já eram seres de outra espécie. Flores! Borboletas! Flores e borboletas dançando alucinadas. Dançavam com o fogo ardendo hipnotizando todos que o sentiam.
As estrelas rebolando freneticamente era tão cômico quanto a lua girando desgovernada. Harmoniosamente bucólico.
De uma crise de risos entrei num desespero fulminante. Esfregava os olhos e continuavam aquela dança, aquele fogo. Eu sou real, meu pensamento não. Real e surreal fundindo a racionalidade irracional, a razão se esvaindo como a fumaça do cachimbo. A ilusão firmando-se razão. Olhei em volta e não encontrei meu irmão. Somente os seres dançando.
Sai correndo pela estrada, sem noção de onde iria. De repente vi meu irmão com o carro atrás de mim, desviei o caminho para o meio do mato na beira da estrada, continuei correndo desesperado, sem rumo, não queria vê-lo, queria a solidão, a meditação. Depois de despistá-lo caminhei algumas horas até chegar num vilarejo abandonado. A única coisa que se destacava entre as pequenas casas da vila era a torre da catedral. Fui à direção da catedral, a porta aberta, entrei. Caminhei pelo corredor escuro e frio, algumas janelas quebradas, um vento gelado passava, alguns milagreiros me olhando desconfiados do canto, outro de cima, dois lá na frente uma outra nos fundos, todos olhavam com olhos arregalados, com uma interrogação estampada no olhar. Olhavam, mas não se manifestavam. Só me olhavam, o que será que enxergavam? Olhar terno? Olhar furioso! Um suor gelado me escorreu pela nuca.
Cheguei ao altar e me ajoelhei, fiz o sinal da cruz. Implorei misericordiosamente por lucidez... Um sopro rouco soou no meu ouvido pausadamente:
- Viu, você não quis experimentar, agora agüenta!
Senti um calafrio, fiquei em choque e sai correndo da igreja, os abençoados me expulsavam com gritos e gargalhadas medonhas.
Sem fôlego, parei de correr e continuei andando por alguma rua desconhecida do vilarejo. Um vento frio. Meti a mão no bolso e encontrei um cigarro, acendi e continuei andando pela neblina. Meus passos estavam flutuantes, mais largos, parecia que estava em degraus, mas estava em chão reto. Avistei um muro de concreto com uma grade alta de ferro, fui seguindo o muro para ver onde iria dar, na esquina do muro, no alto da pilastra, uma gárgula me encarando mal humorada, em seguida, um grande portão de ferro e outra pilastra com outra gárgula, essa, com um sorriso irônico. O portão estava fechado, sem cadeado, porém fechado. Olhei para a gárgula que sorria, ela me convidou para entrar. Na reta do portão um caminho iluminado pela lua, já fatigada, seguia para um bosque de árvores nuas.
Um relâmpago, um vento frio, a neblina se abriu, e com ela o portão.  
Dei um passo curioso em direção à porta. Hesitei. Olhei novamente para a gárgula, ela não me olhava mais, a outra também me ignorava. Estava só. Soltei o cigarro e caminhei adentrando, seguindo o caminho que a lua iluminava. Deserto.
Grandes crucifixos, túmulos sem flores, mensagens sem sentido para as fotografias sem brilho. Fora o assobio do vento frio, era um silêncio total. Um silêncio muito frio.
Caminhei entre os túmulos. Agora estava tranqüilo, despreocupado, respirava fundo e sentia uma paz me entorpecendo, já não sentia mais nada, o raciocínio falhava. Meu corpo virou para o outro corredor, vozes trêmulas me chamavam... Quem?
Logo à frente uma sepultura, meu irmão estava deitado nela, ao seu lado o pai nosso. Sua mão acenou para mim, os dois estavam felizes, sorridentes. Deitei entre eles, me aconcheguei. Confortável, quentinho. Fechamos os olhos.
E a lucidez...                                               

sábado, 1 de setembro de 2012

Cactu e Peyote, COLORIDO


Cactu e Peyote

            Peyote vinha andando pela estrada sertaneja com seu jeans desbotado, sua camisa xadrez aberta, a boina, a mochila, os colares, os anéis, as tatuagens e brincos. O desanimo, o cansaço, e a fome também o acompanhavam.
            No fundo da estrada, no sentido oposto ao que Peyote caminhava, surgiu uma barca velha levantando poeira. Era Cactu que vinha distraidamente fumando seu cachimbo.

  
Cactu: Pra onde você vai?
Peyote: Não sei.
Cactu: Entra aí, eu te levo.
Peyote: Pra onde?
Cactu: Sei lá!
Peyote: Vamo bora!
Cactu: Quer fumar?
Peyote: Quero sim.
Cactu: Vai fazer o quê?
Peyote: Não sei. Legal esse reggae.
Cactu: Posso dar um tapa? O que você faz?
Peyote: De tudo um pouco. Como, bebo, cago, me apaixono, trepo, gozo. Mas também trepo sem me apaixonar, gozo sem trepar. E você?
Cactu: Eu também trepo sem me apaixonar.
Peyote: Eu me referi se você trabalha?
Cactu: Não. Não trabalho.
Peyote: E vive do que?
Cactu: Toco viola, e vou tocando sem rumo.
Peyote: E isso não é trabalho?
Cactu: Não. É uma diversão. E você, trabalha?
Peyote: Não.
Cactu: E vive do que?
Peyote: Faço e vendo artesanato.
Cactu: E isso não é trabalho?
Peyote: Não, é opção.
Cactu: E você, não toca nada?
Peyote: Toco. A sensibilidade das pessoas.
Cactu: Ah! Você tem um sangue poético.
Peyote: Não. Eu tenho um sangue cheio de impurezas. E você, toca algo mais além de violão?
Cactu: Toco o coração das moças.
Peyote: Deixa eu fumar. Você que é o poeta. Toca música sua ou dos outros?
Cactu: Os dois. E além da sensibilidade, você toca algum instrumento?
Peyote: Batuco um pandeiro.
Cactu: Então vamos nos dar bem. Vamos fazer som e vender seus artesanatos.
Peyote: Vamos! Quer fumar mais?
Cactu: Não, pode matar.

            A fumaça dominou o raciocínio e um silêncio se criou e se seguiu.


Peyote: Tá pensando em quê?
Cactu: Se deus criou o homem. Você acredita nisso?
Peyote: Não! O homem foi quem criou deus! A ignorância do homem mitificou deus. O homem criou deus para justificar desgraças, tragédias, fenômenos e causas inexplicáveis, incompreensíveis. E com isso a fé pra servir de muleta, um apoio, para os fracos, ignorantes, leigos e incapazes, insuficientes que não conseguem suprir seus desejos e fica dependendo de deus, e não do seu próprio esforço, empenho. E ainda culpam deus para justificar que o pior é porque deus quis.
Cactu: Mas então me explica a criação do mundo. Não acha mesmo que teve um dedo de Deus?
Peyote: Já explicaram... Evolução...
Cactu: Mas você não acha que todos esses milhares de anos é muito pouco tempo para tanta evolução?
Peyote: Pouco tempo são os sete dias, ou melhor, seis. No sétimo ele descansou. Pra quê deus criaria o homem?  
Cactu: Ah, sei lá... tédio, brincar... Ainda continuo achando que foi deus que criou tudo. Acredito nisso, tenho fé nisso e preciso dessa fé dessa crença para ter motivos para seguir em frente de bem, só com o bem.
Peyote: É, as pessoas precisam mesmo de fé para não se perder. Mas então me explica: “Que palavra pronunciastes para dar ser à matéria com que havíeis de formar aquelas palavras?”
Cactu: ?...?...?
Peyote: Olha só: os que têm fé não crêem que primeiramente ele criou o céu e a terra?
Cactu: ...? ...
Peyote: Por meio de palavras soantes e transitórias...
Cactu: ?...
Peyote: Pois então, antes do céu e da terra é necessário que já existisse uma criatura para entoar as vibrações daquela voz.
Cactu: ????????? ... São tudo metáforas.
Peyote: Pois é, a costela, o fruto proibido, são tudo metáforas. A fé é uma metáfora.   
Cactu: Olhe o sol, as flores, as aves... deus habita todos os seres, todos os lugares.
Peyote: Então o homem mata deus indiretamente, propositalmente, prazerosamente, inconscientemente. deus é autodestrutivo.
Cactu: O homem é que é ignorante.
Peyote: Logo, deus, a sua imagem e semelhança.
Cactu: deus criou o mundo, o universo.
Peyote: Arrã, ah, criou também o papai noel e o coelhinho da páscoa. O carnaval e a guerra. Extraterrestre também é criação de deus? ele deu vida a outros seres em outros planetas além aqui da terra? Como era a Eva extraterrestre? Ou foi outro deus que criou os extraterrestres? Um deus extraterrestre? Deus é extraterrestre, não está na terra. Claro, não é bobo.
Cactu: A fé motiva as pessoas a bons atos, a ter esperança.
Peyote: A fé tapa os olhos e oculta a realidade. Se uma coisa aconteceu foi porque uma serie de fatos e consequências levaram a isso, e não aconteceu porque deus quis. Pra uma coisa acontecer tem que haver intenção, esforço, vontade; e não deus querer. Se você tem sonhos, faça você mesmo não espere por deus. Você faz o seu caminho, não deus.
Cactu: Enche esse cachimbo aí vai.