Carta de Bill Clarity.
Porto Seguro - Bahia - Brasil, Fevereiro de 2004.
Senhor:
Visto que trabalhei na sua assessoria por três
árduos anos, sem folgas, sem nenhuma férias, fiquei realmente agradecido pelas
férias que o Senhor insistiu em patrocinar e grato por ter arranjado tudo e
escolhido o meu roteiro.
Resolvi escrever para lhe contar como foi a
viagem e como vão as coisas por aqui.
O embarque no navio em Miami foi rápido. Um
solzinho agradável, mas fui para o meu quarto dormir. Estava muito cansado,
apaguei, dormi por muito tempo, nem sei quantas horas. Quando acordei estávamos
parando no Caribe para outros turistas com o mesmo destino embarcarem. Fui
andar pelo navio. Fui ao restaurante almocei uns frutos do mar que não me
lembro o nome, estava horrível. Em seguida peguei um jornal, e cá para nós, sua
imagem não anda muito boa mundo a fora. Fui para a proa, um garçom passeando
com uma bandeja com taças de champanhe me ofereceu uma, peguei duas, uma para
mim, e outra para uma moça linda que estava encostada na grade com olhar
perdido. Ela era cubana, e assim que disse meu nome ela pegou o champanha e
saiu andando sem me dizer o dela. Acendi um cigarro e um rapaz, também
americano, veio me pedir um. Dei, ele pediu o isqueiro, acendi e ele começou a
falar da vida dele, que estava se divorciando e então resolveu fazer o cruzeiro
para arejar a mente. Seguimos a viagem ali na proa tomando champanhe, ele ficou
falando do seu casamento, os problemas que levaram ao divorcio, e logo percebi
que ele era um corno, idiota, avarento. De repente ele silenciou e pensou que
ela poderia estar com outro e hesitou em pular, mas aí o capitão anunciou que
logo estaríamos chegando ao destino. Brasil. Ele desistiu de pular.
Avistamos terra. Respirei fundo e um ar inebriante
encheu meus pulmões. Conforme fomos chegando, percebemos que na praia havia
muita gente. Quando desembarcamos ouvi uma música com uma melodia animada,
olhei para a praia e todos dançavam alegremente. Um guia disse que estávamos
chegando em Porto Seguro,
que a parada duraria duas horas e depois partiríamos para uma ilha, também no
território brasileiro. O rapaz que conheci na proa desapareceu no tumulto para
sair do navio.
Desci do navio e fui andar pela praia. Fiquei
desgovernado, sem saber para que lado olhar. As mulheres daqui se vestem muito
bem, um pouco menos e ficam completamente nuas. Mas também, com esse calor, é
bem propicia a nudez. São de tamanha lascívia os trajes que elas usam. Um micro
biquíni deixando as nádegas todas de fora, e que belas nádegas têm todas essas
mulheres, todas muita animadas, com um rebolado inefável. Acho que é essa
música que é tão envolvente, todos no mesmo ritmo, fazendo coreografias, chega
a ser cômico.
Encostei no balcão de um quiosque e me flagrei batucando no balcão,
aquela música já me conquistara. Apesar de falarmos línguas diferentes, nos
comunicamos muito bem eu e os nativos. Nem havia pedido nada para o homem do
bar e ele já me deu um suco de limão, muito forte inclusive esse suco, mas era
uma delicia, não conseguia parar de molhar a boca com ele. Não sabia o preço,
mas achei que cinco dólares deveriam pagar, e assim que dei a nota ao dono do
bar ele me deu várias fichas que valia o suco de limão que eu bebia, adorei. Na
ficha estava escrita a palavra “caipirinha”, a primeira palavra que aprendi em
português.
Entrei no clima da festa rapidamente, não tinha
como fugir, era contagiante. Uma negra veio dançando em minha direção, que
suingue, que rebolado. Veio me olhando sedutora, girava em torno de si mesma rebolando,
que pernas, ela mexia aquela bunda como ninguém, nunca vi coisa igual, fiquei
excitado e com vontade de ir apertar as nádegas dela, mas fiquei com receio de
desrespeitá-la, com medo de ser preso, não sei, mas fiquei na minha. Ela olhava
e sorria, fui tentar dançar com ela, e ela dava vastas gargalhadas. De certo
que eu não levava jeito para a coisa.
Sem palavras ofereci a ela uma caipirinha, ela
aceitou e ficou dançando ao meu lado. A música estava muito alta e ela ficava
gritando no meu ouvido: “Carnaval! Carnaval! Samba! Samba!” E rebolava e me
seduzia. Depois de três copos do suco de limão, e muito pula-pula, comecei a
sentir muito calor e quando estava pensando em tirar minha camisa, a negra a
rasgou e jogou no chão. Para mim foi um grande favor. Fiquei só de bermuda e me
senti muito melhor. Quando dispencei os sapatos, fiquei muito mais aliviado. As
fichas do suco de limão tinham acabado então fiz um sinal com a mão para o cara
do bar levantando dois dedos e gritei: “Caipirinha! Caipirinha!” Ele sorriu e
me trouxe dois copos do suco de limão. Um para mim outro para a negra. Fiquei
curioso para saber o nome dela, e quando perguntei, ela não entendeu. Pegou-me
pela mão e fomos em direção à avenida. Lá havia um caminhão com uma banda em
cima e em volta do caminhão uma multidão pulando. Estava de mãos dadas com a
negra e disse a ela repetidamente:
- My name is
Bill. What is your?
Repeti várias vezes até que ela me ouviu e
disse:
- Meu nome é Eva.
Eva... Tão simples tão charmosa. Linda! Cabelos
trançados, olhos grandes e negros como sua pele. Seios fartos e firmes,
barriguinha lisa, mas nem vou me atrever a descrever aquela cinturinha, aquele
quadril, aquelas pernas grandes e grossas, bem torneadas, as nádegas fortes. E
assim como Eva, outras milhares, todas aliciadoras, farreando pelas ruas.
Olhei no relógio, eram quatro e meia da tarde de
uma segunda-feira. O povo aqui não trabalha? Pensei. Lembrei-me do navio, a
essas horas ele já devia estar partindo para ilha. Não fiz questão de ir, nem
me preocupei. Depois eu dou um jeitinho. Já estava me familiarizando com os
brasileiros e já estava dominado pelo clima de festa.
Eva ia me puxando pela mão e pulando pela
avenida. Ela pegou um pequeno tubo da mão de uma garota e ficou espirrando na
minha boca, eu ia respirando e ficando meio tonto, um tilintar de pirlimpimpim
e tiriririri muito simplesmente engraçado. De repente senti uma deliciosa
sensação, parecia que estava levitando. Parei, fechei os olhos e deixei aquela
deliciosa sensação tomar conta de mim. Minha mente foi-se em devaneios
entorpecidos, o raciocínio se perdeu e senti Eva me abraçando, e quando abri os
olhos ela me envolveu num beijo embriagante.
A noite caiu. Céu maravilhosamente estrelado. A
gandaia não cessava nunca, já estava começando a me sentir exausto, aquele suco
de limão deixou minha cabeça pesada. Disse a Eva que precisa de um hotel, ela
entendeu rápido, e achamos um “Hotel Plaza”, que existe em qualquer lugar do
mundo. Eva me acompanhou. Entramos no apartamento, primeiro fizemos amor, no
chão mesmo, depois tomamos banho, nos deitamos. Não conseguia sair de cima da
Eva. Ela se levantava para ir até a cozinha pegar uma cerveja, que, diga-se de
passagem, é bem mais saborosa que a daí, desce estupidamente redondo, quando
ela abria a geladeira eu já estava grudado nela apertando suas nádegas, ela
sorria seu riso sedutor e abria as pernas. Em cima da pia, na mesa, na estante,
na banheira, na cama, na parede... Indescritível atração.
Paramos para fumar um cigarro, liguei a tv,
passava um noticiário e, apesar de não entender uma só palavra, pelas imagens
somente violência, corrupção, medo, miséria, guerra, fome, desemprego, e apesar
de tudo isso, para finalizar o noticiário e amenizar as tenções falaram de
futebol e mostrava todo mundo sambando.
No dia seguinte, de manhã, estava sentindo uma
dor de cabeça, Eva me convenceu a ir à praia. Ela me trouxe um coco cheio de
água gelada, doce, muito saboroso, em seguida entramos no mar, água límpida,
agradável, e quando saímos já não sentia mais a dor de cabeça. Olhei para o
horizonte, para a paisagem em volta, para as mulheres ali perto. Paradisíaco!
Eva chegou com uma caipirinha, me deu um beijo, fomos para uma roda de samba. É
de enlouquecer ver aquelas mulheres sambando, e sem que você queira, sem perceber,
sem saber, você já esta sambando. Desajeitado, mas sambando. Depois de mais
algumas caipirinhas surgiu de novo um caminhão na avenida com uma banda e a
multidão pulando em volta.
Em plena terça-feira, o povo aqui não trabalha? Pensei
novamente. Eva me trouxe um cigarro, ela apontava para o cigarro e para o chão,
para o cigarro e para o chão, acho que ela queria dizer que era típico dali.
Fiquei fumando e tomando a caipirinha, sentei embaixo de um coqueiro e me deu
uma enorme preguiça de fazer qualquer coisa. Encorajei-me e fui até o bar pedir
outra caipirinha, fiquei curioso e pedi para que o rapaz me ensinasse a
preparar. Ele me revelou o segredo do drink. Quando houver oportunidade,
preparo uma. Voltei para encontrar Eva, ela nos levou para um canto mais
tranqüilo da praia, havia uma rede, nos deitamos abraçados e a primeira coisa
que se passou pela minha cabeça é que daqui não saio mais, pelo menos enquanto
durar o carnaval.
Aqui é um
paraíso, tudo muito sossegado, sem estresse, muita mulher bonita, muito sol, o
mar lindo para refrescar e a caipirinha... isso o senhor deveria experimentar!
Muita alegria, apesar das desgraças. Um povo meio despreocupado, muito feliz,
acolhedor e simpático.
Uma semana se passou, e descobri que aqui é
carnaval o ano inteiro, todo dia é dia de festa. Isso que faz o Brasil ser o
que é.
Então, conheci D2, que me apresentou a maldição
do samba e me ensinou a rimar, aí, “Subi no morro e bebi cachaça, fumei maconha
e obtive a graça. Depois do samba minha vida nunca mais foi a mesma.” Escrevi
para lhe informar que encontrei o meu lugar e que não volto mais. Adoraria
convidá-lo para passar as férias aqui, mas descobri que devido a sua alienação
e ganância, o senhor não é bem vindo. É uma pena.
Bye bye, see you!
Atenciosamente, Bill Clancy.