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Estudando
Nehamas entendi o que ele percebe em Nietzsche sobre a perspectiva da vida e do
mundo enquanto texto. Uma narrativa. E as coisas do mundo são como os elementos
que constroem a narração: os espaços, as personagens, as ações que desenvolvem
em seus devires naturais, para além do
bem e do mal.
Cada
um compõe a sua própria história, escolhe os caminhos, vai escrevendo seus
parágrafos, errante nas pontuações, e forma a sua existência.
Toda
história tem um ponto final, como assim terá esse texto e também a minha vida –
a vida desse que escreve agora – e por isso, enquanto ela não finda, eu a
escrevo, produzindo trabalho: palavras.
Reproduzo
aqui essa ideia por assim crer, ao menos no momento. E tenho fé: “existe é
homem humano. Travessia”. Cada um em seu deserto, com seus macacos.
Coisas
que embalam a forma de viver: Bob Marley, cerveja e larica. Ou o jazz, o tinto
seco e a massa. Ou o blues rock, o uísque e a cocaína. “A cada dia a sua
aflição”. E a beleza de poder escolher, o que usar a cada momento, e estar cada
hora em um lugar, bailarino e saltitante entre as crenças – enquanto vivo.
Ouvir
o som e o silêncio, que é o “som que combina com o nosso sangue” – ouvi de um
poeta. E uma outra ideia, de que o presente é o que acontece enquanto se
planeja o futuro. E como cantava Gonzaguinha: “Toda pessoa sempre é as marcas
das lições diárias de outras tantas pessoas”. Aí estão as prosas que constroem encadeamentos de postura. Eu, com a faca
e o queijo, me corto, como os dois junto ao sangue.
Enquanto
isso, o vento passa sussurrante pela janela, os pássaros piam ao leste-oste,
cachorros ladram ao longe, outro espreguiça aqui ao lado. Com música, acorda
mais um dia da vida, para viver nesse mundo.