Colorido branco e preto
O
livro de estréia de André Arneiro dialoga diretamente com boa parte da produção
ficcional do Brasil de hoje. Nele estão
presentes duas das mais notórias marcas de nossa ficção contemporânea: o realismo cru, que reproduz as vivências
individuais e sociais dos caóticos centros urbanos (populosos ou não), e um
grande experimento formal e discursivo.
O realismo da obra aparece na apresentação das relações humanas, sempre
muito violentas, com destaque para as práticas sexuais desenfreadas, e de forte
teor antropofágico. As personagens se
devoram umas às outras o tempo todo.
Estamos em um universo de pleno canibalismo sexual. Já os experimentos linguísticos estão
presentes na variedade das formas adotadas (narrativas, diálogos, estrutura
teatral, roteiro de cinema, etc), bem como na exploração da variante oral
popular urbana. Isso torna a obra de
André Arneiro um exemplo do tom predominante na ficção de nossos dias.
O livro, muitas vezes, é quase
pornográfico, pois a descrição das práticas sexuais desenfreadas é sempre
explícita e crua. A pornografia só não
toma plena conta do texto em função do riso que as cenas acabam
suscitando. O pornográfico não pode ser
cômico. Também contundentes são as cenas
de violência e agressão, que pontuam essas vidas tragicômicas. Tudo é excesso; tudo é excessivo. A vida das personagens é um claustrofóbico
beco sem saída. O combustível dessas
existências frustradas é a droga – promessa de cor para vidas
descoloridas. Nada mais violento que o
sexo. A linguagem, por sua vez, é
violenta ela mesma, dado o uso frequente do palavrão e de expressões do
calão. A obra, em função disso, é de
leitura quase sempre indigesta, e pode suscitar reações nos leitores mais
sensíveis, ainda que as narrativas apresentem momentos de grande
comicidade. Ri-se muito lendo estas
histórias, por incrível que pareça. O
excesso de realismo gera o cômico, dado o caráter absurdo de algumas cenas, e
da comicidade gerada pela linguagem chula.
O colorido indicado pelo livro pode ser lido como uma ironia, pois aqui
estamos num labirinto escuro, e do qual não há saída. Eis o avesso do mundo dos contos de
fadas. Cinderela não é chamada para aqui
(a não ser pela paródia). Sexo e drogas
são armas contra o desespero; porém, longe de destruí-lo, tais recursos
tornam-no ainda maior. Como fugir?
É nessa contundência que reside a força
desse livro de estréia, pois o que nele há de mais forte é o franco despudor da
escrita. A virulência da linguagem é o
ponto alto dos textos, ao lado de evidente teor experimental das
narrativas. Obra de estréia, fruto
daquilo que o autor reconhece como sua “adolescência literária”, Colorido é
uma obra com altos e baixos. O despudor
da escrita, o experimentalismo narrativo, o uso da fala oral e a contundência
das cenas, que são os aspectos mais positivos do livro, nem sempre parecem
estar plenamente realizados. De qualquer
forma, a obra anuncia um escritor de forte sensibilidade social, que vê na
ficção uma forma de entender um pouco o caos típico das relações humanas de
nossos dias.
Eduino José Orione
