quinta-feira, 9 de agosto de 2012

cut-up da diarréia


Brasil Diarréia, Hélio Oiticica

O que importa: a criação de uma linguagem. O conceitual deveria submeter-se ao fenômeno vivo, o deboche ao “sério”. Sou contra qualquer insinuação de um processo linear; os processos são globais. As potencialidades criativas são enormes, mas os esforços parecem mingalar, justamente quando são propostas posições radicais; posições radicais não significam posições estéticas, mas posições globais vida-mundo – linguagem – comportamento: encadeamento de postura. Propor uma mudança é mudar mesmo, e não conviver com o banho de piscina paterno-burguês ou com o mingau da “crítica d’arte” brasileira. Minoria absoluta, que persiste num nível experimental criador. Um contexto maior de ação, incluindo os lados ético-político-social. De onde nascem as necessidades criativas: hábitos inerentes à sociedade brasileira: cinismo, hipocrisia, ignorância: convi-conivência. Todos se punem, aspiram a uma pureza abstrata – estão culpados e esperam o castigo – desejam-no. Que se danem. Posição crítica, ambivalências, estar apto a julgar, julgar-se, optar, criar, é estar aberto às ambivalências, já que valores absolutos tendem a castrar quaisquer dessas liberdades. A dificuldade de uma opção forte é sempre a de assumir as ambivalências e destrinchar pedaço por pedaço cada problema. Superar uma condição provinciana estagnatória. Anular a condição colonialista é assumir e deglutir os valores positivos dados por essa condição, e não evitá-los como se fossem uma miragem (o que aumentaria a condição provinciana para sua permanência); assumir e deglutir a superficialidade e a mobilidade dessa “cultura”, é dar um passo bem grande. Construir, ao contrário de uma posição conformista, surge de uma ambivalência crítica. Maior inimigo: o moralismo quatrocentão (de origem branca, cristã-portuguesa) – brasil paternal – o cultivo dos “bons hábitos” – a super autoconsciência – a prisão de ventre nacional. A formação brasileira é de uma falta de caráter incrível: diarréica; quem quiser construir tem que ver isso e dissecar as tripas dessa diarréia – mergulhar na merda. A condição brasileira, subterrânea, “consciência para vencer a super paranóia, repressão, impotência. A omissão consciente. A denúncia desse policiamento moralista-paternal-reacionário vigente hoje no Brasil. A transformação radical no campo dos conceitos-valores vigentes: é algo que propõe transformações no comportamento-contexto, que deglute e dissolve a convi-conivência. No Brasil, uma posição crítica universal permanente e o experimental são elementos construtivos. Tudo o mais é diluição na diarréia.     

Nenhum comentário:

Postar um comentário