Brasil Diarréia, Hélio Oiticica
O que importa: a criação de uma
linguagem. O conceitual deveria submeter-se ao fenômeno vivo, o deboche ao
“sério”. Sou contra qualquer insinuação de um processo linear; os processos são
globais. As potencialidades criativas são enormes, mas os esforços parecem
mingalar, justamente quando são propostas posições radicais; posições radicais
não significam posições estéticas, mas posições globais vida-mundo – linguagem
– comportamento: encadeamento de postura.
Propor uma mudança é mudar mesmo, e não
conviver com o banho de piscina paterno-burguês ou com o mingau da “crítica
d’arte” brasileira. Minoria absoluta, que persiste num nível experimental criador. Um contexto maior de ação, incluindo os
lados ético-político-social. De onde nascem as necessidades criativas: hábitos
inerentes à sociedade brasileira: cinismo, hipocrisia, ignorância: convi-conivência. Todos se punem,
aspiram a uma pureza abstrata – estão culpados e esperam o castigo –
desejam-no. Que se danem. Posição crítica, ambivalências, estar apto a julgar,
julgar-se, optar, criar, é estar aberto às ambivalências, já que valores
absolutos tendem a castrar quaisquer dessas liberdades. A dificuldade de uma
opção forte é sempre a de assumir as ambivalências e destrinchar pedaço por
pedaço cada problema. Superar uma condição provinciana estagnatória. Anular a
condição colonialista é assumir e deglutir os valores positivos dados por essa
condição, e não evitá-los como se fossem uma miragem (o que aumentaria a
condição provinciana para sua permanência); assumir e deglutir a
superficialidade e a mobilidade dessa “cultura”, é dar um passo bem grande.
Construir, ao contrário de uma posição conformista, surge de uma ambivalência
crítica. Maior inimigo: o moralismo quatrocentão (de origem branca,
cristã-portuguesa) – brasil paternal – o cultivo dos “bons hábitos” – a super
autoconsciência – a prisão de ventre
nacional. A formação brasileira é de uma falta de caráter incrível:
diarréica; quem quiser construir tem que ver isso e dissecar as tripas dessa diarréia – mergulhar na merda. A condição
brasileira, subterrânea, “consciência para vencer a super paranóia, repressão,
impotência. A omissão consciente. A
denúncia desse policiamento moralista-paternal-reacionário vigente hoje no
Brasil. A transformação radical no campo dos conceitos-valores vigentes: é algo
que propõe transformações no comportamento-contexto, que deglute e dissolve a convi-conivência. No Brasil, uma posição
crítica universal permanente e o
experimental são elementos
construtivos. Tudo o mais é diluição na
diarréia.
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