sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Prefácio de COLORIDO, pra quem não leu...


Colorido branco e preto

            O livro de estréia de André Arneiro dialoga diretamente com boa parte da produção ficcional do Brasil de hoje.  Nele estão presentes duas das mais notórias marcas de nossa ficção contemporânea:  o realismo cru, que reproduz as vivências individuais e sociais dos caóticos centros urbanos (populosos ou não), e um grande experimento formal e discursivo.  O realismo da obra aparece na apresentação das relações humanas, sempre muito violentas, com destaque para as práticas sexuais desenfreadas, e de forte teor antropofágico.  As personagens se devoram umas às outras o tempo todo.  Estamos em um universo de pleno canibalismo sexual.  Já os experimentos linguísticos estão presentes na variedade das formas adotadas (narrativas, diálogos, estrutura teatral, roteiro de cinema, etc), bem como na exploração da variante oral popular urbana.  Isso torna a obra de André Arneiro um exemplo do tom predominante na ficção de nossos dias.

O livro, muitas vezes, é quase pornográfico, pois a descrição das práticas sexuais desenfreadas é sempre explícita e crua.  A pornografia só não toma plena conta do texto em função do riso que as cenas acabam suscitando.  O pornográfico não pode ser cômico.  Também contundentes são as cenas de violência e agressão, que pontuam essas vidas tragicômicas.  Tudo é excesso; tudo é excessivo.  A vida das personagens é um claustrofóbico beco sem saída.  O combustível dessas existências frustradas é a droga – promessa de cor para vidas descoloridas.  Nada mais violento que o sexo.  A linguagem, por sua vez, é violenta ela mesma, dado o uso frequente do palavrão e de expressões do calão.  A obra, em função disso, é de leitura quase sempre indigesta, e pode suscitar reações nos leitores mais sensíveis, ainda que as narrativas apresentem momentos de grande comicidade.  Ri-se muito lendo estas histórias, por incrível que pareça.  O excesso de realismo gera o cômico, dado o caráter absurdo de algumas cenas, e da comicidade gerada pela linguagem chula.  O colorido indicado pelo livro pode ser lido como uma ironia, pois aqui estamos num labirinto escuro, e do qual não há saída.  Eis o avesso do mundo dos contos de fadas.  Cinderela não é chamada para aqui (a não ser pela paródia).  Sexo e drogas são armas contra o desespero; porém, longe de destruí-lo, tais recursos tornam-no ainda maior.  Como fugir?   

É nessa contundência que reside a força desse livro de estréia, pois o que nele há de mais forte é o franco despudor da escrita.  A virulência da linguagem é o ponto alto dos textos, ao lado de evidente teor experimental das narrativas.  Obra de estréia, fruto daquilo que o autor reconhece como sua “adolescência literária”, Colorido é uma obra com altos e baixos.  O despudor da escrita, o experimentalismo narrativo, o uso da fala oral e a contundência das cenas, que são os aspectos mais positivos do livro, nem sempre parecem estar plenamente realizados.  De qualquer forma, a obra anuncia um escritor de forte sensibilidade social, que vê na ficção uma forma de entender um pouco o caos típico das relações humanas de nossos dias.

Eduino José Orione  

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