segunda-feira, 27 de abril de 2015

INSPIRAÇÃO DA JANELA

Ao oposto de Adamastador, esse gigante é camarada. Com seu peso abandonado sobre a selva, repousa suave. O nariz empinado mira o astro-rei, que já se recolhe por detrás da relva montanhosa. Mantos cálidos e pálidos espalham-se dispersos sobre o seu corpo inerte: neblinas – poeira cósmica em gotículas condensadas lambendo-se umas às outras e escorregando pela superfície dos corpos que arrepiam. As mãos cruzadas sobre o tronco indicam sua tranquilidade geológica: nada coça, nada o faz mover-se. Os olhos cavos são grutas onde se agrupam segredos de São Francisco: cola, Hollywood, éter... Mentes entorpecidas que passeavam por ali na alucinação da escalada daquilo que não se vê, que mal se percebe – juventude irremediável, remediada, adiada, a cada dia a dia, adia; foi. O pé dorme longe de batalhas ou tensões épicas, apenas a exaustiva respiração das gaivotas que rumam ao bosquencantado – da amizade. O vento sopra melodias em harmonia com a pensativa fumaça: a lenta luz solar que se esparrama em compasso sobre o dorso do gigante. Olhos fundos penetram o invisível: o gigante descontrai e acomoda seu corpo glorioso nas fendas tectônicas da movediça lombar-terra, as ervas verdejantes espreguiçam até atingirem o céu. O Gigante Mantiqueira me encara, olho em seus olhos. Ele sorri e pisca para mim. A noite abraça o dia em milimétricos tons variáveis do laranja ao roxo. Último tapa. Passo a cortina, esfumaça a janela. O gigante continua seu sono secular, eu saio a passear.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário