Ao
oposto de Adamastador, esse gigante é camarada. Com seu peso abandonado sobre a
selva, repousa suave. O nariz empinado mira o astro-rei, que já se recolhe por
detrás da relva montanhosa. Mantos cálidos e pálidos espalham-se dispersos
sobre o seu corpo inerte: neblinas – poeira cósmica em gotículas condensadas
lambendo-se umas às outras e escorregando pela superfície dos corpos que
arrepiam. As mãos cruzadas sobre o tronco indicam sua tranquilidade geológica:
nada coça, nada o faz mover-se. Os olhos cavos são grutas onde se agrupam
segredos de São Francisco: cola, Hollywood, éter... Mentes entorpecidas que passeavam
por ali na alucinação da escalada daquilo que não se vê, que mal se percebe –
juventude irremediável, remediada, adiada, a cada dia a dia, adia; foi. O pé
dorme longe de batalhas ou tensões épicas, apenas a exaustiva respiração das
gaivotas que rumam ao bosquencantado – da amizade. O vento sopra melodias em
harmonia com a pensativa fumaça: a lenta luz solar que se esparrama em compasso
sobre o dorso do gigante. Olhos fundos penetram o invisível: o gigante
descontrai e acomoda seu corpo glorioso nas fendas tectônicas da movediça lombar-terra,
as ervas verdejantes espreguiçam até atingirem o céu. O Gigante Mantiqueira me
encara, olho em seus olhos. Ele sorri e pisca para mim. A noite abraça o dia em
milimétricos tons variáveis do laranja ao roxo. Último tapa. Passo a cortina,
esfumaça a janela. O gigante continua seu sono secular, eu saio a passear.
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