terça-feira, 22 de janeiro de 2013

IRREVERSÍVEL - relendo


E por falar em coisas que não voltam... (O leite derramado: deixe o gato lamber; o tempo perdido: valorize a experiência)... O filme Irreversível, de Gastar Noé, 2002, é uma ida sem volta, assim percebe-se a vida, os passos dados, as atitudes tomadas.
“O tempo destrói tudo”. Parece mesmo uma ideia sem exceção, afinal, o que o tempo não destruiria? O amor, a paz, a memória, a amizade...? O abstrato depende, sempre, de um sujeito para que o realize, para que o faça existir. E o sujeito, de carne e osso, esse fácil e rápido o tempo destrói.
Geralmente, não gostamos que alguém conte o final do filme, mas, no caso de Irreversível, a história já começa pelo fim; e, no entanto, a aflição não o deixa se desinteressar pelo resto da história. De forma indigesta, os créditos; a imagem vai girando no sentido horário, deixando tonto, oferecendo um leve enjôo. Um breve diálogo; os personagens saindo fudidos do “Rectum”. A narrativa encadeia-se num movimento retrógrado, em que, a cada cena, volta-se a um momento anterior. Então, a pesar de já se saber qual o final da história, a ânsia é para entender o que os levou até lá.
Os personagens vão se infiltrando, num caminho incerto e desconhecido, pelas vielas do “Rectum” – espécie de puteiro gay de última categoria, que só poderia cheirar mesmo a merda, como indica o próprio nome do lugar: o intestino, por onde o excremento sai – e de lá saíram, anteriormente, excretados, feito fezes.   
Estavam os dois amigos à procura do “Tênia”. E o que significa “tênia”? É uma espécie de parasita intestinal, que provoca a teníase, uma infecção. Tênia, em Irreversível, é esse parasita, uma espécie de cafetão dos travestis e dos putos, que vive nesse tubo infecto, o “Rectum”, onde toda merda se rumina.
As cenas de violência dentro do “Rectum”, quando os amigos pensam ter encontrado o Tênia (sim, pegaram e mataram o cara errado – o que só se percebe depois, com a sequência da irreversibilidade das cenas), são de dar nós nas tripas: um braço quebrado sem dó; uma cabeça esmagada com um extintor; tudo em close, sem prece, nos detalhes, como a digestão.
Agora, por que estavam os dois lá, atrás do verme? Por vingança. Esse outro corrosivo que percorre as veias do humano. Isso se entende, com o decorrer, ou com o retroceder da história. Quando a bela namorada de um (que é também a ex do outro) sai sozinha de uma festa descontente com o namorado, por sua empolgação infantil, que destoava do clima light da moça, ao menos no momento. Ela sai brigada da festa e vai pegar um metrô. Quando está dentro do tubo vermelho, eis que surge o Tênia, dando uma dura em um de seus travestis, e, quando vê a bela burguesa, esquece do seu traveco e parte pra cima da bela mulher.
Faz-se um plano sequência, mas com a câmera estática, de uma cena de estupro em que o mérito dos atores dói aos olhos do espectador. Por volta de uns quinze minutos, sem exagero, Tênia fode com o cu da moça. Como se não bastasse, a violência gratuita não passa de graça, e ele ainda arregaça com o imaculado rosto da donzela, em golpes forte e brutais, desfigura o que era lindo. Se a face dela voltará a ser o que era... Não se sabe, isso o filme não mostra, provavelmente não, por melhor que estejam evoluídas as técnicas para a cirurgia plástica, com aquele estrago, as cicatrizes iriam ficar. Aliás que o filme não mostra nem se ela sobreviveu ao ataque. Além das cicatrizes físicas, caso ela sobreviva, a cabeça, o psicológico dessa mulher nunca mais seria o mesmo: isso sim seria irreversível, sem plástica que resolva.
Voltando um pouco mais na história, antes da festa, uma tranquilidade plena, aquela preguiça da boa, acordando a hora que der na telha do cochilo da tarde, beijo na boca: amor recíproco. No sono dela, um sonho visualizando um tipo de tubo vermelho, em que encruzilhadas surgiam, dividindo os caminhos (metáforas). Banho, café, bem-estar. Ele sai para comprar uma bebida para levar à festa. Ela faz um teste de gravidez no banheiro. A narrativa regressa um pouco mais ainda, na manhã do dia. Raios de sol, jardim, crianças brincando. Ela, deitada, lê em um livro alguma coisa sobre presságios. Sente algo, desconfia-se grávida. E, se no início a imagem girava no sentido horário, agora ela gira no sentido inverso, mas tudo o que já aconteceu não volta mais para ser como era; no máximo sugere uma ideia de como poderia ser, ou ter sido, vir a ser.
Era uma vez um dia que tinha tudo para ser um belo dia... Mas, conforme ele vai andando, as coisas vão acontecendo... E logo você pode cair na merda. E, se pisou na merda, abra os dedos.   
O filme não teria o mesmo impacto se rolasse numa sequência cronológica clara e objetiva. Invertendo a ordem dos acontecimentos, o irreversível mostra-se realmente sem volta.
Portanto, é preciso atenção para saber onde colocar o pezinho. O que vai cheirar o seu focinho...      

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