quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Das dependências

Depende ou não

Todo Homem busca a independência, sem perceber que isso é sandice, contra a lógica da Natureza. Todos dependemos uns dos outros e as coisas estão todas interrelacionadas numa forma de dependência. 
Dependemos das pessoas para compartilhar os momentos da existência. Com-partilha: dividir, confraternizar, celebrar. Estender-se ao próximo, saber ouvir, conseguir prosear.  
O filho depende do pai para orientá-lo, educá-lo. Da mãe para ter o aconchego do colo e sentir o amor que ambos sentem, numa esfera de pura magia criada pelos laços das dependências entre os afetos estabelecidos.
Um amigo depende do outro, para haver a amizade. Assim como um cálice solitário não faz brinde, uma taça sem mais uma não dá tim-tim. O cachorro sem o dono não abana o sorriso no rabo e o homem sem o melhor amigo não sabe o que é uma mordida de reconhecimento carismático.
O artista depende de seu público, da mesma forma que esse precisa do show para que brilhem os seus olhos. E o que seria do palhaço sem o riso? A dança depende da música, aí a gente dança, conforme a banda toca. O sexo pode rolar, mas vai depender se a conversa é boa. E se o papo está bom, desce mais uma! Depende, não tem que trabalhar amanhã? Pois a caipirinha se faz com cachaça, limão, açúcar e gelo, não podendo faltar nenhum dos ingredientes, mas para ficar redonda depende do talento nas dosagens de quem a prepara, e a ressaca vai depender da quantidade bebida. E pra ajudar, o cigarro depende do fogo para acender, e o viciado é dependente do seu cigarro, e cada junk com seu macaco!
Até mesmo uma panela depende da tampa para cozinhar, e o arroz depende do feijão para completar o prato feito, e o bife a cavalo não vai sem o ovo, e a comida fica boa, como a caipirinha, dependendo da mão que leva tempero, e que também depende, é claro, do gosto do freguês.
O sujeito depende do coração para viver, e pulsar sem animar é apenas instinto – esse sim independente – ou quase, porque vai muito da potência da percepção de cada um. O homem depende da mulher e ela dele para nascer outro ser, seja no acidente, que depende do imprevisto, seja na paixão, que depende do tesão e da disposição dos elementos envolvidos – aí a bela junta-se à fera. Já o amor, ih, aí depende de muita novela.
Somente o universo, que gira independente da vontade de ninguém, continua seu movimento. Mas isso ainda depende da fé de cada um, pois a ciência sem a experiência é teoria e a religião sem o fiel é apenas história. Deus sem o rebanho nem chegaria a existir, como o bem e o mal, quando a perspectiva é selvagem. Desaparece a alma quando a crença é corpórea, e a quantidade de dinheiro depende dá vontade de adquiri-lo e do valor que a ele se dá.
Percebe-se, então, que as inevitáveis relações de dependência estabelecem simultaneamente uma relação de completude. Mas ainda assim, vai depender da interpretação de cada um.
     

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